dezembro 20, 2008

Navegar para a outra banda, derrubando a margem


Apetecia poder sair daqui, permanecendo aqui.
Olhar daqui, por dentro de mim,
sulcando quem poderei ser,
neste vaivém do sonho
que tenho
e não tenho.
Apetecia continuar a sentir o silêncio da beira rio,
viver o ritmo das águas vão batendo
nas pedras do cais,
ficar assim, nesta margem de mim mesmo,
onde posso passar sempre à outra banda.

Apetecia partir dentro de mim
para o meu próprio lugar achar,
agora que me vai doendo a nostalgia do exilado,
o estar aqui sem ser daqui,
e sem sequer me apetecer fingir que sou daqui.
Que meu lugar é ter lugar longe daqui,
em sítio de sereno viajar,
peregrinando pinheirais de bruma
e praias de areias longas.

Neste vaivém, onde estou quem não sou,
É em saudades que me volvo
e me converto.
Sei que sou quem não estou
e que apetecia largar de mim
a amargura de procurar viver
meu signo.
Porque tenho a noção exacta dos meus próprios limites,
da minha falta de força para suster forças
bem mais fortes do que os meus braços
e que, por isso, se quebra o encanto
daquela luz que brilhou em mim,
neste dias de sonho sofrido.

Foram lábios feitos navios


Sei que não dissemos a palavra amor,
mas também sei
que foi amar o que nos aconteceu.
Como aquele abanar do vento,
feito estampido,
que venceu os tímpanos do tempo.
Sei que só nós sabemos como foi
e que o segredo de nada dizermos,
tanta coisa nos disse,
nesses silêncios da noite.
E sei também que apetecia poder voltar
a ser essa breve viagem de mãos dadas,
de corpos dados,
quando dois seres que nunca se repetem
viveram um acontecer
que nunca mais será como foi
dessa primeira vez.


Houve um menino homem, em sua procura de viver,
farto de sustentar os pesos da angústia
que, em teu corpo de mulher menina,
procurou que acontecessem frutos, flores,
sombras nocturnas de primavera,
uma cama feita caruma seca de pinhal
e o tecto pleno de estrelas
num quarto aberto ao sinal do horizonte.

Apetecia o verbo amar no plural

Apetecia, aqui e agora,
Escrever, escrever-te
longa carta de amar-te,
assim letra a letra, sobre o papel,
com a força antiga e perfumada
de uma esperança viva, rediviva.
Apetecia não temer
dar nome ao proibido,
dizendo que são breves
as nuvens que nos toldam o sonho.
Apetecia ter a força inteira
de, contigo, reviver o mar sem fim.

Nesta luz a mais que me define


Dia de sol a rodos, nesta costa ocidental,
onde apetece saudar
a braveza do mar,
sentindo a luz solar, em sua carícia de força.
Neste dia de cristalina primavera,
nesta luz a mais que me define,
nesta viagem de sempre,
em que refaço as longas raízes da esperança,
a que, infelizmente, continua a faltar terra e muro.

O mistério de, contigo, ser mais eu

Apetecia ser contigo,
ser assim bem mais do que eu,
ser contigo,
ser o nós,
e ser por nós, à tua beira.
Ser contigo para ser mais eu,
e sermos, sem sinais de angústia,
nem restos empedernidos da invernia.
Apetecia, contigo,
olhar de frente
quem, na verdade, somos,
sem a carga dos versos por cumprir.

Que o vento me traga
quem na verdade sou.
Os sinais do sítio para onde vou.
As vagas de um mar por descobrir.
Sinais de silêncio,
restos de vento.
Que versos, dispersos, alumiem
quem na verdade sou.

Apetecia viajar à beira de quem fomos,
de quem somos,
perto do rio
que em seu vaivém
nos deu corrente.
Ter suave vertigem do amanhã,
brasa de um fogo por cumprir,
risco de um além
que talvez um dia possa ser,
nesse tempo por cumprir.




Apetecia ser contigo,
assim à tua beira,
sem sinais de angústia,
nem restos da empedernida invernia,
para sermos mais do que nós.
Apetecia, contigo, olhar de frente
quem, na verdade, somos.

Para que o vento nos traga
sinais do sítio para onde vamos.
Em versos, dispersos, por cumprir,
que nos dêem as vagas de um mar por descobrir.

Apetecia viajar à beira de quem fomos,
perto do rio que em seu vaivém nos deu corrente.
Para voltarmos a ser
a suave vertigem do amanhã,
a brasa de um fogo que nos dê
o dia que há-de ser.

Apetece fugir para te encontrar


Apetecia descobrir esta cidade que reprimi,
dizer todas as palavras proibidas
que, em segredo, me revolvem.
Viajar todos os recantos,
todos os sítios que ainda se resguardam
e que não sei.

Apetecia, em suma, viver e reviver
os longos silêncios desta procura.
Estar assim contigo, de mãos dadas,
olhos nos olhos,
decifrando o mistério de um tempo que pode-ser.

Sonho e sofro o reviver,
os passos de um novo tempo
que, por dentro, já é ser.
O tempo de um templo por cumprir,
quando tuas mãos me dão sinal
da palavra original.

Sei que somos e que sofremos
os passos todos que não demos.
Na simplicidade de cumprir
o nosso sonho, vamos semeando
na terra prometida, que tem de ser,
um lugar onde.
Viver e reviver
os longos silêncios desta procura.



Se eu pudesse voar sobre quem somos,
vencendo o medo que tivemos dentro de nós.
Se pudesse chegar o tempo de dizermos mais,
o que um ao outro jamais dissemos.
Nas mãos a que nos demos e onde tecemos,
dedos cruzados, o calor que há-de vencer
o frio da espera.
A noite não terá fim nesse cais suspenso sobre o lodo
e em teu corpo deporei a flor do tempo que virá.


Que só contigo eu sei dizer amor,
olhos nos olhos, viver amor,
corpos nos corpos,
sem ter que me esconder
de quem na verdade sou.

Chegou, de repente, um pedaço de céu azul

Chegou, de repente, um pedaço de céu azul.
E o meu irmão pardal escapou-se
largando o espaço
onde minhas mãos o poderiam acariciar.
Apeteceu-lhe também não ter gaiola,
horários, calendários e agendas
nesse ter que fazer, para se fingir viver,
entre cartas de bancos, declarações de impostos
e outras algemas de uma cidadania
de trabalhador por conta de outrem,
beneficiário e contribuinte
por causa da assistência na doença
e subsídio para o funeral
deste belo Estado de Bem Estar.

E lá vem o sol, antes de ser poente.
E toda a barra fica plena deste azul de Lisboa,
desta luz a mais que nos dá desejo
de viver intensamente,
apetecendo sentir a música que me chega
destes sinais de primavera.
É a luz que me alumia e me dá sonho.
E força para vencer as nuvens e penumbras
que me toldam o silêncio.

E fui ao fundo das águas.
E, livremente preso,
me veio o doce prazer do movimento,
de poder cumprir o desafio de atravessar o rio
que nos separa.
Navegar para a outra banda,
derrubando a margem,
nesta procura por onde me vou buscando,
neste prazer de viajar em mim,
dentro de mim,
dando o meu corpo ao movimento,
em busca de um sonho que não acho.
E assim disperso pelos pedaços de vida
que, apesar de vivida, continuo a procurar,
fui peregrinando rumo à linha que limita
a minha vida,
esse risco de bruma que vai além
do que sinto e penso.

Que apetecia viver e reviver,
procurar longe daqui,
um qualquer lugar que apenas fosse meu,
um lugar onde pudesse regressar
a quem na verdade sou.
O lugar onde poisar meu verso,
a palavra prometida
que resguardo em sonho,
mesmo quando penso deter
as mãos fechadas que me dão revolta.
E sempre este sonho de procurar quem somos,
nas ruas abertas à brisa suave.

Da procura de um amor feliz


Sempre a espera que antecede
o momento da procura,
um rio, o vento,
o barco que passa,
o sítio mais estreito
que nos dá passagem.
Uma barca que nos leve além,
para ficarmos bem mais perto
desse pedaço de sonho
que se guarda em mim.
No apetecer de um tempo descoberto,
na sagrada procura de um sinal
que me dê sonho,
na espera sentida de um tempo que me dê alento.
Sou quem sonho, as mãos sustenho
sem palavras que descrevam o momento.
O breve sinal que me deu alma.
E as mãos contenho, devagar.
Que aqui quem sonho me deteve
à beira de um tempo que não foi.
Ouve, deixa que te diga
o que, no fundo me apetecia,

nesta ternura de ainda termos cumplicidade.
Deixa que te diga que ainda vale a pena
o segredo que nos arrasta livremente
pelos breves meandros da felicidade.
E apetecia escrever-te sem peias,
deixar aqui o nome que soletro, mas não registo,
com medo que vasculhem estes papéis.
Quanto apetecia dizer-te profundamente,
que é por tua causa que aqui me vou escrevendo,
para que um dia, quando voltarmos a quem na verdade somos,
nus e secretos,
num qualquer lugar que nos dê futuro,
teus olhos possam estas linhas percorrer.
Quanto apetecia que estas palavras pudessem
despertar quem sou,
que, mesmo depois de morto,
nestas palavras eu possa, através de alguém
que isto mesmo sinta, me eternizar.
Que, com alguém, sentindo o meu sentir de agora,
possa voltar, um dia,
a eternidade que, humanamente senti,
na brevidade desta vida.
Que tua cumplicidade sentida
possa despertar-me das brumas da memória,
em nome do amor.
Aqui me espero à tua espera.
Nesta casa onde apetecia que viesses
para desbravarmos a noite.
Para, diante da lua,
poder seguir
a cartografia do teu corpo,
decifrando todos os sinais que me dão rota.
É a noite que vai seguindo seus passos,
nesses longos caminhos que apetece peregrinar,
nestas viagens de me olhar por dentro,
de me olhar para dentro.
É o tempo.
O muito tempo que me apetece,
para que o tempo não finde
e seus sinais me não dêem a longa esperança da viagem.
E apetecia seguir contigo,
ser contigo,
para sempre viver contigo.
Como dói saber que o tempo me consome
e nos consome

Ter um qualquer lugar que me dê lugar


Sinto que necessito, aqui e agora,
de umas quaisquer mãos livres
que me dêem espaço
para um qualquer lugar no mapa dos sonhos.
Um qualquer signo
que me possa transportar
para novos dias,
diante de quem sou.
Dias de quem, na verdade, sou.

Ter um qualquer lugar que me dê lugar,
que não esta espera sem mãos de espera,
este desejo de ficar e de sofrer.

Olho através da janela o pequeno pinheiro,
o melro de bico amarelo, avermelhado,
as flores vermelhas da jardineira,
a água da ribeira e o céu inteiro sem uma nuvem sequer. E sabe tão bem sentir, no azul da rua, a mesma cor que tenho dentro de mim. Sabe tão bem sentir a vinda de mais um dia e apetecer vivê-lo, na paz inteira, sem que as nuvens do remorso e do pecado me toldem a memória.


Perdi o meu amor, por desejar ir além
das mãos que me prendiam,
quando, na curva de um caminho
que, afinal, já não havia,
me volvi.
Renunciámos ao azul do mar,
das águas correntes,
das sombras frescas.
Sinto que a Primavera não vai voltar,
nem depois de sofrermos a invernia.
Não posso continuar a sofrer a dor de não saber,
de todos os dias ter que conhecer
memórias de tempos que não quero conhecer.

Preso no lodo,
envolto em dor,
foi por ti que chorei em descaminho.
Folha de vento, solta da árvore,
meu corpo se perdeu dentro de mim.
Perdi o norte e o sinal
de procurar o signo de amarar.
Não posso partilhar meu rumo
na terra pisada,
onde crescem flores que não semeei.
Há sucessivas frustrações
que nenhum correr do tempo
pode, afinal, apaziguar.

De meu além não vim
e assim perdido,
perdi a voz.
Sinto-me intruso,
foragido,
proibido.
Afinal, era verdade o lado lunar
que te ocultava,
o soporífero paraíso
de um exótico comprado
em qualquer agência de viagens,
essas teias de luxúria a que chamam prazer,
as orgias dos acasos enevoados
que esmagaram gestos de pureza,
nessa rodilha decadentista de carnes flácidas
com que a loucura vai cercando o desencanto.
Quem, estando à porta do ser,
nele não quer entrar
pode não ter razões
que o façam mover.

Há páginas de dor que vamos escrevendo
para ninguém as possa um dia ler,
nem eu próprio,
páginas e páginas impublicáveis,
com que vou tentando apagar
as mágoas das noites sofridas em solidão,
sem conseguir desligar da angústia
que me agita e
não consigo verbalizar.
São páginas e páginas em que me sofro
e refreio
e que não compenso
nos fumaradas opiáceas
com que outros enevoam o mundo.

Sinto quem sofro,
mas não consigo livrar-me dos fantasmas
que dentro de mim volteiam.
Não consigo superar estes receios
que me agridem em surdina.
Me receio,
me refaço,
me retomo.
Mas não consigo vencer a futilidade
e esquecer
a força do vento
e o perfume da caruma nos pinhais.
Prefiro manter o sonho
de procurar a perfeição.

Não tenho terra, não tenho casa



Não tenho terra, não tenho casa
e apenas resta o mar que me perdeu.
Vagabundo por tua causa
em tal procura me não acho,
correndo todas as ruas do mundo.
Não tenho terra, não tenho casa
e, sem lugar, é, do próprio tempo,
que me desprendo.
Ficou por achar quem sou
e, em nome do sonho que me norteia,
foi de mim que fugi por tua causa.

Nesta dor da solidão, assim guardado em mim,
temo cruzar-me com quem sofre
o silêncio de não dizer.
E guardo quem sou, assim calado,
sem força até para dizer da revolta que me invade,
do sentido que procuro,
do tempo que não acho.
Assim fechado, em casa,
à espera de uma qualquer música
que me liberte
destas quatro paredes
de quem assim, de si, se perde,
de quem passeia sua procura
neste silêncio imenso que me invade.

Que apetecia viver e reviver,
procurar, longe daqui, em qualquer lugar,
um lugar onde que me faça regressar.
Um verso onde poisar meu verso,
a pátria prometida
que resguardo em sonho,
nas mãos fechadas da revolta,
neste sonho de procurar quem sou
pelas ruas abertas à brisa suave,
e estes fins de tarde com poentes de fogo
que vão incendiando o céu azul
que me deu quem sou.

Que aqui e agora, me vou sofrendo,
no verso que procuro neste correr livre da pena,
em minha própria procura.


Não tenho terra, não tenho casa


Hoje sou amargura, voz embargada
de quem vai sofrendo o vazio da procura.
Porque sou o mesmo, ainda que o não seja.
Porque apetecia que não apetecesse
tua procura.


Apetecia poder ser, poder viver,
poder sofrer.
Apetecia a solidão agreste
de quem ousa erguer
as mãos para uma qualquer luz
que não consigo olhar de frente.

Ter um signo e não poder cumpri-lo,
ter um sonho e não poder vivê-lo.
Sim, eu sei que sou a margem
que, em vão, se usa,
para que tudo seja gente que esqueça.
Apenas servi de trampolim, para não ser.

dezembro 18, 2008

Foi aqui que fomos nós


Foi aqui que fomos nós,
um dia,
quando o Verão nos dava
espaço de saudade
e a água, amarga de sal,
nos animava.
Quando corpos salgados,
pelas areias,
se passeavam,
e um longo pôr do sol
nos amainava
a fúria dos dias.

Foi aqui que fomos nós,
em vida.
Foi aqui, entre anchovas e coentros,
na sombra breve dos pinheiros,
na pedra negra do cais que nos deu mar,
foi aqui que sonhei
ser para sempre
quarto crescente
e um sol de fogo, a ocidente
prometendo regressar.
Foi aqui que vi nascer o dia
no alto da falésia da Arrifana,
no alto da minha vida,
quando disse não
aos dias que sofria
e, contigo, viajei comigo,
dobrando a névoa do tempo,
a raiva amarga da renúncia.

Foi aqui que, por mim dentro,
me esqueci de quem sofreu
a espera de te encontrar,
desses dias todos
de mãos por dar,
de um amor por cumprir.
Foi aqui que me esqueci
de um tempo que já não há
e que, olhando o sol de frente,
contra mim, venci
a ira dos dias
que foram fantasia.
Foi aqui que não ouvi
o silvo do farol
em aviso de naufrágio.
Foi aqui que, dentro de mim,
vivi quem na verdade sou.
E tudo quem fui
antecedeu quem sou,
como no estampido
de um sonho adolescente
nesse encontro de menino
que me deu sinal de navegar
nos mares em do meu silêncio.
Tudo quem sonho
desceu assim dentro de mim.
Foi aqui e foi assim.
Não guardarei segredo
e a todos poderei dizer
que amanhã será o sonho que sonhei
feito viagem.
Foi aqui e foi assim
e assim será para sempre
um tempo de areia e urze,
que foi assim que apeteceu que fosse.
Foi assim, na margem de quem sou,
na ponte que me levou ao sonho,
onde, além de mim,
me atravessei
Foi aqui que, contigo, vivi
pela primeira vez
quem sempre fomos.
E aqui seremos plenitude,
se vencer a força de sonharmos
e o mar nos der
a ira de chegarmos
dentro de nós, além de nós.

Foi aquém e foi além



Aqui, onde quem estou, serei.
Onde meu corpo é sinal de procura,
sinal de um mar para onde vou.
Onde o verso me dará quem sou.
Onde versos e versos me levam ao segredo.

Sim, deixa dizer em segredo deste pedaço de procura,
deste resto de música que, de mais além me dá sinal.
Deixa dizer meu sonho
e seguir o sonho de um mar por cumprir.

Porque, para os outros que me lêem,
não posso dizer tudo quem sou.
Os breves recantos onde me guardo.
Os sinais que me dão segredo.

Ter um qualquer lugar que me dê lugar

Sinto que necessito, aqui e agora,
de umas quaisquer mãos livres
que me dêem espaço
para um qualquer lugar no mapa dos sonhos.
Um qualquer signo
que me possa transportar
para novos dias,
diante de quem sou.
Dias de quem, na verdade, sou.

Ter um qualquer lugar que me dê lugar,
que não esta espera sem mãos de espera,
este desejo de ficar e de sofrer.

Olho através da janela o pequeno pinheiro,
o melro de bico amarelo, avermelhado,
as flores vermelhas da jardineira,
a água da ribeira e o céu inteiro sem uma nuvem sequer. E sabe tão bem sentir, no azul da rua, a mesma cor que tenho dentro de mim. Sabe tão bem sentir a vinda de mais um dia e apetecer vivê-lo, na paz inteira, sem que as nuvens do remorso e do pecado me toldem a memória.


Perdi o meu amor, por desejar ir além
das mãos que me prendiam,
quando, na curva de um caminho
que, afinal, já não havia,
me volvi.
Renunciámos ao azul do mar,
das águas correntes,
das sombras frescas.
Sinto que a Primavera não vai voltar,
nem depois de sofrermos a invernia.
Não posso continuar a sofrer a dor de não saber,
de todos os dias ter que conhecer
memórias de tempos que não quero conhecer.

Preso no lodo,
envolto em dor,
foi por ti que chorei em descaminho.
Folha de vento, solta da árvore,
meu corpo se perdeu dentro de mim.
Perdi o norte e o sinal
de procurar o signo de amarar.
Não posso partilhar meu rumo
na terra pisada,
onde crescem flores que não semeei.
Há sucessivas frustrações
que nenhum correr do tempo
pode, afinal, apaziguar.

De meu além não vim
e assim perdido,
perdi a voz.
Sinto-me intruso,
foragido,
proibido.
Afinal, era verdade o lado lunar
que te ocultava,
o soporífero paraíso
de um exótico comprado
em qualquer agência de viagens,
essas teias de luxúria a que chamam prazer,
as orgias dos acasos enevoados
que esmagaram gestos de pureza,
nessa rodilha decadentista de carnes flácidas
com que a loucura vai cercando o desencanto.
Quem, estando à porta do ser,
nele não quer entrar
pode não ter razões
que o façam mover.

Há páginas de dor que vamos escrevendo
para ninguém as possa um dia ler,
nem eu próprio,
páginas e páginas impublicáveis,
com que vou tentando apagar
as mágoas das noites sofridas em solidão,
sem conseguir desligar da angústia
que me agita e
não consigo verbalizar.
São páginas e páginas em que me sofro
e refreio
e que não compenso
nos fumaradas opiáceas
com que outros enevoam o mundo.

Sinto quem sofro,
mas não consigo livrar-me dos fantasmas
que dentro de mim volteiam.
Não consigo superar estes receios
que me agridem em surdina.
Me receio,
me refaço,
me retomo.
Mas não consigo vencer a futilidade
e esquecer
a força do vento
e o perfume da caruma nos pinhais.
Prefiro manter o sonho
de procurar a perfeição.

Um tempo-mar que há-de ser


Apetece sorver o tempo-mar
que há-de ser
e assim volver ao sonho,
à vertigem de um acaso procurado.
Porque, no mais fundo de quem sou,
há sempre um pedaço de mar.

Há um tempo de espera de quem sou.
Agora e aqui, diante de mim.

E vou, pelo mar sem fim,
que meus olhos perseguem.
E reparo, nas muitas palavras dispersas
que me repõem.




Há um espaço em mim
que tenho de reencontrar
e captar
para nele semear
os dias que hão-de ser.
Há um espaço de beleza por semear.
Que hoje apetecia poder seguir contigo
numa qualquer viagem de chegar
à identidade que nos deu ser.

Nosso humor merancórico...


Tudo estava enevoado pelo molha-tolos
que me dava a bruma do ensimesmamento.
E nem sequer senti o deslumbramento da foz,
perdendo-se na fundura do mar bravo.
E assim larguei os pinheirais de bruma,
só começando a sentir azul
bem perto de minha pequena pátria,
onde voltei a sorver
a força do rio que me deu pátria,
as salinas,
a mansa foz,
as cores vivas do sol na serra
que tem nome de boa viagem.


Sou tanta gente antes de mim
que, quando por mim dentro me procuro,
é em todos os outros
que me confundo.
E assim, com os outros,
em comunhão, refeito
sou bem mais do que me penso.

Dia de regresso para seguir em frente

Há coisas que apetece dizer,
mas que talvez já não saiba dizê-las
como sabia.
Coisas que talvez tenha medo de dizer,
ou que ainda não posso dizer
e que, por isso, se ficam em fluidez,
perdidas no suave travo amargo
desta breve tristeza que apetece,
quando o sol já me desperta.
Apenas quero um pedaço de tempo
em que me guarde e resguarde
do tempo que, em vão, não tenho

Sofro esta pulsão de escrever-me,
desvendando os recantos de quem sou
e que, às vezes, nem eu próprio sei.
E assim encruzilhado, por mim dentro,
vou sentido mãos calcorreando
as teclas de um piano
e que me levam além de mim.

Detesto a fadiga dos horários

Detesto a fadiga dos horários.
Como se o tempo apenas tivesse datas,
marcas
divisórias entre um antes e um depois,
como se todas as horas,
todos os dias,
todos os momentos
não fossem parcelas fungíveis
da grande corrente de vida
sem fim,
neste vaivém dos dias
sem a rotina dos horários,
sem a fadiga de quem não aceita
a dor de não achar-se.
Como se, aqui e agora, eu não fosse mais do que sou.

Aqui e agora, numa estrada deserta,

Aqui e agora, numa estrada deserta,
diante da barra do Tejo,
de olhos postos num sol que vai pondo
a Ocidente...

Haverá sempre alguém que, amanhã,
estará aqui,
no seu agora,
olhando o mistério
desta barra que foi partida
para o outro lado do mundo.
Haverá sempre navios
que partem mar dentro,
para outro lado do mundo.
Haverá sempre navios que partem daqui
para o mais além,
à procura de um novo mundo.
Não consegue viver quem não tiver
a humildade de se sonhar.
Navegar é preciso, viver não é preciso.

No alto da falésia da minha vida


Foi aqui que fomos nós,
um dia,
quando o Verão nos dava
espaço de saudade
e a água, amarga de sal,
nos animava.
Quando corpos salgados,
pelas areias,
se passeavam,
e um longo pôr do sol
nos amainava
a fúria dos dias.

Foi aqui que fomos nós,
em vida.
Foi aqui, entre anchovas e coentros,
na sombra breve dos pinheiros,
na pedra negra do cais que nos deu mar,
foi aqui que sonhei
ser para sempre
quarto crescente
e um sol de fogo, a ocidente
prometendo regressar.
Foi aqui que vi nascer o dia
no alto da falésia da Arrifana,
no alto da minha vida,
quando disse não
aos dias que sofria
e, contigo, viajei comigo,
dobrando a névoa do tempo,
a raiva amarga da renúncia.

Foi aqui que, por mim dentro,
me esqueci de quem sofreu
a espera de te encontrar,
desses dias todos
de mãos por dar,
de um amor por cumprir.
Foi aqui que me esqueci
de um tempo que já não há
e que, olhando o sol de frente,
contra mim, venci
a ira dos dias
que foram fantasia.
Foi aqui que não ouvi
o silvo do farol
em aviso de naufrágio.
Foi aqui que, dentro de mim,
vivi quem na verdade sou.
E tudo quem fui
antecedeu quem sou,
como no estampido
de um sonho adolescente
nesse encontro de menino
que me deu sinal de navegar
nos mares em do meu silêncio.
Tudo quem sonho
desceu assim dentro de mim.
Foi aqui e foi assim.
Não guardarei segredo
e a todos poderei dizer
que amanhã será o sonho que sonhei
feito viagem.
Foi aqui e foi assim
e assim será para sempre
um tempo de areia e urze,
que foi assim que apeteceu que fosse.
Foi assim, na margem de quem sou,
na ponte que me levou ao sonho,
onde, além de mim,
me atravessei
Foi aqui que, contigo, vivi
pela primeira vez
quem sempre fomos.
E aqui seremos plenitude,
se vencer a força de sonharmos
e o mar nos der
a ira de chegarmos
dentro de nós, além de nós.

As mãos acariciando o tronco dos dias...

O tempo, sempre a palavra tempo
que apetece saborear
e peregrinar,
as mãos acariciando o tronco dos dias
e os pés calcorreando a caruma dos pinhais.
E lá vou olhando, ao longe,
as nuvens que, do longo mar, se desprendem.
Sempre o tempo me dando ritmo, especialmente quando me apetece continuar aqui, mesmo que seja noutro lugar, para que as circunstâncias despertem outras faces do meu ser. Basta que a terra gire e que o sol venha alumiar certas ruas obscuras que não me deixavam peregrinar por dentro da minha própria história.

Passaram os tempos das amarguradas madrugadas
sem conseguir dormir,
desses assomos de tristeza
que provocam nos outros o sofrimento que não merecem.
Quando apetece fugir para não olhar o sol de frente,
visualizando a inteireza da nossa encruzilhada,
quando nem sequer conseguimos verbalizar a angústia,
percorrendo ruas de obscuros barulhos
assentes no lodo dos sítios
onde o sol tarda a chegar,
entre restos de barcos que apodrecem.



Apetece que estes dias não acabem
e que consiga capturar este prazer de viver feliz,
vencendo as penumbras.
Não, não me sinto um qualquer náufrago
em qualquer ilha deserta ou secreta
que a imaginação doentia pode inventar.
Prefiro a dureza desta costa ocidental e a violência luminosa
deste sol de Portugal que nunca admitiriam esses temporários embriagantes que nos entontecem. Porque há antiquíssimos sinais de um mar de há muito descoberto. Há o silêncio profundo desses segredos, ditos com palavras de todos os dias, maduramente sentidos. Há, sobretudo, a dor da procura de sentido, assente em sofrimento passado.

Novas palavras do nascer de novo

O dia que há-de ser
quando vieres para sempre
e quando, contigo, mais uma vez,
voltar quem somos,
mas para sempre,
longe do medo,
perto do mar,
à sombra da pedra,
na raiz da terra.


Sei que apenas queria o impossível
de um breve intervalo.
Que todo o tempo parasse
e que o todo nos desse
um tempo sem tempo,
num mar azul
de espuma branca.


Queria um tempo que, sem porquê, perdi
e nos perdeu,
que, na sombra do dia que tarda,
na cinza quente de um dia que tem de ser,
na tarde de um dia que será para sempre,
que tuas mãos me peçam
que minhas mãos te dêem
eternidade.

As ondas batendo breves no longo cais de pedra


E ficarão, para sempre,
as pequenas vagas batendo mornas
nos longos cais de pedra
das chegadas, sem partidas.

Ficará eterno, o prometido barco
que nos há-de levar
para o outro lado
do mar,
ficará, para sempre,
o infinito a que nos demos.

Apetecia dizer que amanhã poderemos dar tempo

Apetecia dizer que amanhã poderemos dar tempo
ao tempo do não-tempo,
para que um breve momento nos dê quem somos.
Que as minhas mãos em tuas mãos
vivam a tal viagem por cumprir.
Que as mãos nossas sejam navios ousados
que novo mar nos descubram.
Que, nossas, as mãos nos dêem
mansos sulcos ainda mais fundos,
ainda e sítios de sermos sem dizer não.
Para conjugarmos por fim o verbo mar
e dizermos sem medo
o que tememos.
Que, de mar a mar, seja possível
não mais parar de amarar.

Porque há mar demais, dentro de nós

Porque há mar demais, dentro de nós,
Amanhã, a manhã há-de chegar,
e, breve, o momento nos dará
a procura de um sempre
que sempre foi procura.
Então, nossas mãos ousadas,
mais uma vez, serão
sinais da viagem por cumprir.

E mansas, profundas,
sulcando os ermos,
virá um tempo sem tempo
de mais sermos.
E, conjugando o verbo mar,
nesse amarar,
corpo diante de corpo,
corpos em sol, corpos de sal,
teremos sítio para vencer o medo
e dizer amor e mar.

E poderei contigo, para sempre, viajar,
sem que as memórias proíbam
e os silvos sustenham
a força de chegarmos.
Assim seremos, para sempre,
em sítios que só nos sabemos,
à beira do sonho
de quem somos,
sem que o vento nos traga
o medo frio do remorso
em noites de agonia.

Porque há mar demais à nossa beira

Porque há mar demais à nossa beira.
E um novo tempo sem tempo
em nosso tempo.
Um desejo secreto de apetecer dizer
que amanhã terá de ser,
sem as fantasias dos impossíveis,
sem esses sítios sem pedra
onde nunca se pode estar.