E todos somos passagem
para a necessária viagem que devemos ser,
abertos para todo o mundo.
A bruma, o som do mar distante
e a raiz profunda do vento
que desperta.
dezembro 18, 2008
Os muitos papéis em que me perco
Tantos são os papéis em que me perco,
tantas as palavras que me prendem!
Tantos os restos do que pensei ser!
Quando apetece ficar para sempre
nessa sombra de apetecer olhar
uma qualquer nesga de céu.
E desse lugar não quero regressar.
Tenho de ficar.
tantas as palavras que me prendem!
Tantos os restos do que pensei ser!
Quando apetece ficar para sempre
nessa sombra de apetecer olhar
uma qualquer nesga de céu.
E desse lugar não quero regressar.
Tenho de ficar.
Olho ao longe quem sou
Olho ao longe quem sou
e voltando ao signo que me deu distância,
estendo os braços de um sublime que se vai cumprindo.
Volto a ser quem sempre fui,
pedaço de mar por descobrir,
longo silêncio crescendo nas palavras que me escrevem,
neste vazio de um infinito
em que me perco.
Uma hora de caminhada pelas ruas planas deste lugar
com mar ao fundo
e o sol nascendo,
enquanto a passarada vai acordando as ruas vazias.
E respiro fundo diante da beleza da manhã
e a força deste silêncio.
Caminhando, sem dizer nada,
assim me vou escrevendo,
mesmo antes de sentir a liberdade da caneta,
diante do café da manhã.
Porque tempo não está para filosofices ou politiquices,
mas para sentir os pormenores da paisagem,
apenas apetece continuar feliz
e poder olhar os outros, olhos nos olhos,
sem o calculismo dos que se fingem parecenças.
Sinto saudade de mar, das pequenas ondas do bem tempo.
Da limpeza da areia.
Dos longos passeios na maré baixa,
falésia a falésia, assim diante de quem sou.
e voltando ao signo que me deu distância,
estendo os braços de um sublime que se vai cumprindo.
Volto a ser quem sempre fui,
pedaço de mar por descobrir,
longo silêncio crescendo nas palavras que me escrevem,
neste vazio de um infinito
em que me perco.
Uma hora de caminhada pelas ruas planas deste lugar
com mar ao fundo
e o sol nascendo,
enquanto a passarada vai acordando as ruas vazias.
E respiro fundo diante da beleza da manhã
e a força deste silêncio.
Caminhando, sem dizer nada,
assim me vou escrevendo,
mesmo antes de sentir a liberdade da caneta,
diante do café da manhã.
Porque tempo não está para filosofices ou politiquices,
mas para sentir os pormenores da paisagem,
apenas apetece continuar feliz
e poder olhar os outros, olhos nos olhos,
sem o calculismo dos que se fingem parecenças.
Sinto saudade de mar, das pequenas ondas do bem tempo.
Da limpeza da areia.
Dos longos passeios na maré baixa,
falésia a falésia, assim diante de quem sou.
Um tempo de sofrer sem navegar
Há um tempo de sofrer sem navegar
e sentado na pedra, cercado de mar,
sei que dói quem sou, dentro de mim,
resto de um sonho por cumprir,
espaço de um mar por descobrir,
sinal da viagem de quem sou,
sem asas que esvoacem em busca do sonho.
Há um sítio onde posso semear quem sou,
um sítio de ser livre, de ser sonho,
de ser viagem por cumprir,
nesse tempo todo que me dê tempo.
Nem que seja, obreve espaço de passeio,
em noite de luar, sem vento.
Na pátria prometida que tenho dentro de mim.
E apetece largar de mim a pedra pesada
que me vai doendo,
nesta dor de não doer o que me faz doer,
quando apetecia dizer o que nem sequer sei
que tenho para dizer.
Sei que amanhã não terei sítio onde ficar,
sítio onde guardar quem sonho,
sítio de ser livre.
e sentado na pedra, cercado de mar,
sei que dói quem sou, dentro de mim,
resto de um sonho por cumprir,
espaço de um mar por descobrir,
sinal da viagem de quem sou,
sem asas que esvoacem em busca do sonho.
Há um sítio onde posso semear quem sou,
um sítio de ser livre, de ser sonho,
de ser viagem por cumprir,
nesse tempo todo que me dê tempo.
Nem que seja, obreve espaço de passeio,
em noite de luar, sem vento.
Na pátria prometida que tenho dentro de mim.
E apetece largar de mim a pedra pesada
que me vai doendo,
nesta dor de não doer o que me faz doer,
quando apetecia dizer o que nem sequer sei
que tenho para dizer.
Sei que amanhã não terei sítio onde ficar,
sítio onde guardar quem sonho,
sítio de ser livre.
Que estes dias não acabem
Apetece que estes dias não acabem
para que possa continuar a capturar
este prazer de viver feliz,
vencendo as dolorosas penumbras
de um passado onde me perdi.
Não, não me sinto um qualquer náufrago
numa ilha secreta que a imaginação doentia possa inventar.
Prefiro a dureza desta costa ocidental
e a violência luminosa deste sol de Portugal.
Porque há antiquíssimos sinais
de um mar de há muito descoberto.
Há, sobretudo, a dor de procurar
o meu sentido,
assente em sofrimento passado
e o silêncio profundo desses segredos,
ditos com palavras de todos os dias,
maduramente revividos.
Ainda há tempo para dar longos passeios ao domingo,
noites que podem ser manhã
e jardins suspensos na luz do Sul.
Aqui posso ser quem estou,
assente num corpo feito sinal da procura,
onde versos e versos me levam ao segredo,
porque há pedaços de desejo e restos de música.
para que possa continuar a capturar
este prazer de viver feliz,
vencendo as dolorosas penumbras
de um passado onde me perdi.
Não, não me sinto um qualquer náufrago
numa ilha secreta que a imaginação doentia possa inventar.
Prefiro a dureza desta costa ocidental
e a violência luminosa deste sol de Portugal.
Porque há antiquíssimos sinais
de um mar de há muito descoberto.
Há, sobretudo, a dor de procurar
o meu sentido,
assente em sofrimento passado
e o silêncio profundo desses segredos,
ditos com palavras de todos os dias,
maduramente revividos.
Ainda há tempo para dar longos passeios ao domingo,
noites que podem ser manhã
e jardins suspensos na luz do Sul.
Aqui posso ser quem estou,
assente num corpo feito sinal da procura,
onde versos e versos me levam ao segredo,
porque há pedaços de desejo e restos de música.
E assim vamos sendo quem sempre fomos
E assim vamos sendo quem sempre fomos,
quando o tempo nos dá espaço de saudade
futura
e a água, amarga de sal,
nos faz mais vida, braços, areias
e ondas bravas amainando
a fúria do sol.
Podemos, então, colher coentros
e pescar anchovas,
ter a sombra fresca dos pequenos pinheiros
e olhar as pedras de um cais
que sempre foi partida.
Para que nasça sempre um novo dia
no alto das arribas da própria vida,
dobrando a raiva que sofríamos
e vencendo a névoa amarga
dos tempos de renúncia.
quando o tempo nos dá espaço de saudade
futura
e a água, amarga de sal,
nos faz mais vida, braços, areias
e ondas bravas amainando
a fúria do sol.
Podemos, então, colher coentros
e pescar anchovas,
ter a sombra fresca dos pequenos pinheiros
e olhar as pedras de um cais
que sempre foi partida.
Para que nasça sempre um novo dia
no alto das arribas da própria vida,
dobrando a raiva que sofríamos
e vencendo a névoa amarga
dos tempos de renúncia.
Vamos sendo quem sempre fomos
São nebulosos sinais como a espuma das ondas
em seu vaivém,
pedaços de alma que o corpo vai guardando
quase sem porquê,
quando é a própria caneta que assim me vai moldando.
São palavras escritas em muitas cores
de outros tantos marcadores,
como dantes eram os aparos e os tinteiros,
os vários instrumentos com que me vou gerando,
cada um deles com o seu próprio formato de letra.
Contudo, apesar da variedade,
há sempre uma linha de fundo
que me dá identidade.
E assim se vai meu tempo que passa,
nestes cadernos que são sinais
de um caminho que hei-de voltar a percorrer,
todos os dias.
Especialmente quando o breve frio cinzento
nos faz apreciar
os intervalos solarengos
que nos dêem a cor íntima
dos lugares de que somos peregrinos.
em seu vaivém,
pedaços de alma que o corpo vai guardando
quase sem porquê,
quando é a própria caneta que assim me vai moldando.
São palavras escritas em muitas cores
de outros tantos marcadores,
como dantes eram os aparos e os tinteiros,
os vários instrumentos com que me vou gerando,
cada um deles com o seu próprio formato de letra.
Contudo, apesar da variedade,
há sempre uma linha de fundo
que me dá identidade.
E assim se vai meu tempo que passa,
nestes cadernos que são sinais
de um caminho que hei-de voltar a percorrer,
todos os dias.
Especialmente quando o breve frio cinzento
nos faz apreciar
os intervalos solarengos
que nos dêem a cor íntima
dos lugares de que somos peregrinos.
Quando a água, amarga de sal, nos faz mais vida
Aqui e agora, esperando que a luz do sol
Possa vencer as densas nuvens da manhã,
esperando que o calor do dia que vai nascendo
dissipe a carapaça húmida e cinzenta
que, do mar, nos vem chegando.
E olhando assim por dentro de quem sou,
vou sentindo, em sonho, o pensamento,
sem me perder no desassossego
de quem não quer viver por si,
dentro de si.
É que, às vezes, sou menos do que sou,
quando, ao pegar na caneta, diante de um papel,
não consigo atingir o ritmo
daquela escrita quase automática
que vai fluindo por dentro de mim mesmo,
correndo livremente, como água na fonte da montanha.
Sinto que, de vez em quando, me vou imaginando em ritmo,
nestas reportagens íntimas,
onde procuro captar os meandros de bruma
de quem sou parcela.
Apesar de haver sempre as mesmas ideias,
as mesmas metáforas,
as mesmas frases,
as mesmas palavras.
Como se outrem se escrevesse através de mim,
nesta compulsão da palavra por cumprir,
neste desvelar das secretas vozes
que vão conflituando e gerando
o doloroso prazer dos muitos cadernos, agendas e blocos
que, não sendo propriamente diários,
estão intimamente ordenados.
Possa vencer as densas nuvens da manhã,
esperando que o calor do dia que vai nascendo
dissipe a carapaça húmida e cinzenta
que, do mar, nos vem chegando.
E olhando assim por dentro de quem sou,
vou sentindo, em sonho, o pensamento,
sem me perder no desassossego
de quem não quer viver por si,
dentro de si.
É que, às vezes, sou menos do que sou,
quando, ao pegar na caneta, diante de um papel,
não consigo atingir o ritmo
daquela escrita quase automática
que vai fluindo por dentro de mim mesmo,
correndo livremente, como água na fonte da montanha.
Sinto que, de vez em quando, me vou imaginando em ritmo,
nestas reportagens íntimas,
onde procuro captar os meandros de bruma
de quem sou parcela.
Apesar de haver sempre as mesmas ideias,
as mesmas metáforas,
as mesmas frases,
as mesmas palavras.
Como se outrem se escrevesse através de mim,
nesta compulsão da palavra por cumprir,
neste desvelar das secretas vozes
que vão conflituando e gerando
o doloroso prazer dos muitos cadernos, agendas e blocos
que, não sendo propriamente diários,
estão intimamente ordenados.
Nosso destino não é chegarmos ao próprio fim
Nosso destino não é chegarmos ao próprio fim,
cumprindo planeadamente uma qualquer rota
que outros nos tenham delineado.
Nossa missão é caminharmos,
sentirmos o prazer da caminhada,
plenos de sonho, plenos de mar
E assim vamos continuando a ser cigarras,
sem qualquer vocação de formigueiro.
E serenos nos vamos deitando
nas areais do silêncio,
olhando os pequenos fluxos de vapor
que, das ondas, se desprendem,
nesta praia de sentir escorrer o tempo,
sem o stress de quem sofre sem porquê.
Apenas apetece que este tempo não passe,
para ficarmos aqui para sempre.
E não apenas por causa do lugar.
Os lugares em si, de pouco valem.
Valem mais os olhares
com que os encaramos.
cumprindo planeadamente uma qualquer rota
que outros nos tenham delineado.
Nossa missão é caminharmos,
sentirmos o prazer da caminhada,
plenos de sonho, plenos de mar
E assim vamos continuando a ser cigarras,
sem qualquer vocação de formigueiro.
E serenos nos vamos deitando
nas areais do silêncio,
olhando os pequenos fluxos de vapor
que, das ondas, se desprendem,
nesta praia de sentir escorrer o tempo,
sem o stress de quem sofre sem porquê.
Apenas apetece que este tempo não passe,
para ficarmos aqui para sempre.
E não apenas por causa do lugar.
Os lugares em si, de pouco valem.
Valem mais os olhares
com que os encaramos.
Correntes de geração
Para que os grandes escritos possam emergir,
são precisos muitos escritos menores
como aqueles em que me perco.
Que eles apenas servem como elo
de uma corrente de geração,
nesta simples missão de recolector e transportador
de sementes que, noutros, hão-de frutificar.
A cultura é precisamente o inconsciente fruto maduro
que o curto prazo da nossa vida terrena
não permite vislumbrar.
Que outros virão depois de nós
E, neles, o nosso eu se realizará
na mesma procura do eterno,
Porque eu apenas transmito
o que outros, antes de mim, deixaram.
Todos somos muitos outros
que em tempos passados semearam
a emergência de quem somos
e nossas mãos de escrita apenas existem
para se entregaram a uma missão.
Porque outros serão, depois de nós,
o nosso sonho
e neles nos devemos diluir
em plenitude.
Nós e aquilo que temos a ilusão de criar
não passamos de mera poeira de um caminho
que nossos vindouros hão-de calcorrear.
Apenas somos parcela
da longa corda de transmissão
de um sinal de sonho.
E é assim servindo
que poderemos conquistar a eternidade,
mesmo que ninguém o registe
em qualquer nota de pé de página.
No intervalo, apenas seremos compreendidos
Pelos companheiros de procura
mesmo que deles se não recebam
anónimos sinais de irmandade.
Quem tem a consciência de assim estar vivo
sabe sentir o silêncio dos que, em fidelidade,
com ele comungam do mesmo ideal de vida.
Apesar de nos podermos sentir sós,
sabemos, intimamente, que muitas outras mãos
nos querem dar as suas mãos de escrita.
Quem tem a força de uma convicção
plena de sentido,
sabe que poderá continuar a ter o prazer de caminhar
e de sentir que a beleza o há-de iluminar.
Há sempre um largo espaço de mar
que poderemos sulcar.
Há navegações por fazer.
Ilhas por descobrir.
Cabos negros por varar.
são precisos muitos escritos menores
como aqueles em que me perco.
Que eles apenas servem como elo
de uma corrente de geração,
nesta simples missão de recolector e transportador
de sementes que, noutros, hão-de frutificar.
A cultura é precisamente o inconsciente fruto maduro
que o curto prazo da nossa vida terrena
não permite vislumbrar.
Que outros virão depois de nós
E, neles, o nosso eu se realizará
na mesma procura do eterno,
Porque eu apenas transmito
o que outros, antes de mim, deixaram.
Todos somos muitos outros
que em tempos passados semearam
a emergência de quem somos
e nossas mãos de escrita apenas existem
para se entregaram a uma missão.
Porque outros serão, depois de nós,
o nosso sonho
e neles nos devemos diluir
em plenitude.
Nós e aquilo que temos a ilusão de criar
não passamos de mera poeira de um caminho
que nossos vindouros hão-de calcorrear.
Apenas somos parcela
da longa corda de transmissão
de um sinal de sonho.
E é assim servindo
que poderemos conquistar a eternidade,
mesmo que ninguém o registe
em qualquer nota de pé de página.
No intervalo, apenas seremos compreendidos
Pelos companheiros de procura
mesmo que deles se não recebam
anónimos sinais de irmandade.
Quem tem a consciência de assim estar vivo
sabe sentir o silêncio dos que, em fidelidade,
com ele comungam do mesmo ideal de vida.
Apesar de nos podermos sentir sós,
sabemos, intimamente, que muitas outras mãos
nos querem dar as suas mãos de escrita.
Quem tem a força de uma convicção
plena de sentido,
sabe que poderá continuar a ter o prazer de caminhar
e de sentir que a beleza o há-de iluminar.
Há sempre um largo espaço de mar
que poderemos sulcar.
Há navegações por fazer.
Ilhas por descobrir.
Cabos negros por varar.
No dia em que um vaivém chegou são e salvo
Apetece reparar que o belo sonho do catecismo dos industriais
e as maravilhas da ciência e da tecnologia
produzidas pelo positivismo e pelo pragmatismo
tanto nos deram a NASA como Hiroshima,
enquanto por cá apenas produzem caricaturas engenheirais,
de mangas arregaçadas,
prometendo-nos betão e túneis,
assim demonstrando a distância que nos separa das alturas.
Que bom seria não haver guerrilha
nem terrorismo
e que a nossa governação pudesse ser gerida
por um qualquer mecanismo,
nomeadamente por um computador.
Que todo o mundo se reduzisse ao papel quadriculado
de um projecto de barragem,
sem as eternas maluquices a que não conseguimos dar resposta,
como a adoração dos deuses, ou de um só Deus,
as coisas simples do amor
ou as paixões cívicas que metem pátria,
ideologia, camaradagem ou amizade.
Que bom seria sermos todos categorias, abstractas e quantificáveis,
susceptíveis de planeamento,
sem as loucuras dos que ainda citam Platão,
Confúcio,
Cristo,
Rousseau
e Marx...
Infelizmente, continuo a cravar as minhas farpas
no dorso das vacas sagradas,
no meio das muitas chocas
que se fingem gado bravo.
Hoje não apetece falar nas guerrazinhas de homenzinhos
e nas golpadas de salão em que se enreda a política doméstica.
Ainda bem que há um vaivém que regressa
do infinito espaço de que somos parcela.
Ainda bem que ainda podemos ir além,
em descoberta,
esquecendo que por cá ainda restam
a pobreza,
a injustiça,
a doença
e a fome.
Ainda bem que a humanidade pode ter a ilusão
De, a si mesma, se superar,
embora, todos os dias, não consiga
ir além dentro de si.
Por momentos, todos podemos ser
tripulantes de um qualquer vaivém,
reentrando na atmosfera,
depois de uma viagem além de nós,
assim vencendo a má lembrança
de outra nave em que morremos,
no regresso,
por causa de um qualquer grão de espuma
na engrenagem.
e as maravilhas da ciência e da tecnologia
produzidas pelo positivismo e pelo pragmatismo
tanto nos deram a NASA como Hiroshima,
enquanto por cá apenas produzem caricaturas engenheirais,
de mangas arregaçadas,
prometendo-nos betão e túneis,
assim demonstrando a distância que nos separa das alturas.
Que bom seria não haver guerrilha
nem terrorismo
e que a nossa governação pudesse ser gerida
por um qualquer mecanismo,
nomeadamente por um computador.
Que todo o mundo se reduzisse ao papel quadriculado
de um projecto de barragem,
sem as eternas maluquices a que não conseguimos dar resposta,
como a adoração dos deuses, ou de um só Deus,
as coisas simples do amor
ou as paixões cívicas que metem pátria,
ideologia, camaradagem ou amizade.
Que bom seria sermos todos categorias, abstractas e quantificáveis,
susceptíveis de planeamento,
sem as loucuras dos que ainda citam Platão,
Confúcio,
Cristo,
Rousseau
e Marx...
Infelizmente, continuo a cravar as minhas farpas
no dorso das vacas sagradas,
no meio das muitas chocas
que se fingem gado bravo.
Hoje não apetece falar nas guerrazinhas de homenzinhos
e nas golpadas de salão em que se enreda a política doméstica.
Ainda bem que há um vaivém que regressa
do infinito espaço de que somos parcela.
Ainda bem que ainda podemos ir além,
em descoberta,
esquecendo que por cá ainda restam
a pobreza,
a injustiça,
a doença
e a fome.
Ainda bem que a humanidade pode ter a ilusão
De, a si mesma, se superar,
embora, todos os dias, não consiga
ir além dentro de si.
Por momentos, todos podemos ser
tripulantes de um qualquer vaivém,
reentrando na atmosfera,
depois de uma viagem além de nós,
assim vencendo a má lembrança
de outra nave em que morremos,
no regresso,
por causa de um qualquer grão de espuma
na engrenagem.
Dura mais a palavra procurada do que o prazer do poder

Dura mais a palavra procurada
do que o prazer do poder,
esse mandar nos outros pelas pequenas vaidades.
Dura mais o sonho do que o cartão de crédito.
Dura mais o que secretamente nos prende.
Amar é o preciso contrário de mandar.
Não quero mandar nos outros, prefiro amar.
Quando me entrego, sou corrente
dinâmica que não se sente
e que, profundamente, me transforma
em simples parcela da humanidade.
O que será para sempre
não é o que mediaticamente se sente,
captando o que apenas é vaivém.
E é mais belo o acaso de um olhar
que a paisagem possa retratar,
esse momento breve da criação
quando o nosso eu consegue
prender coisa com coisa
e sorver as circunstâncias
que para isso nos rodeiam.
Esboçando o sentimento de um olhar,
compondo um som que nos vá inspirando,
ou fazendo, do sentimento,
as linhas tracejadas de um verso
que um poema por fazer possa conter.
Diante do mar, diante do tempo
Diante do mar, diante do tempo,
quão pequeno me sinto,
perante o que será sempre igual.
Nesta brevidade do humano tempo de vida,
onde apenas é eterno o transcendente
e o semear.
Onde estas linhas que escrevo irão durar
mais do quem as escreve.
Se os papéis resistirem.
Se as palavras valerem para guardar.
Se amanhã alguém, ao lê-las,
sentir que é um pedaço de quem sou agora.
Eterno é também o sentimento que outros possam sentir.
Sobretudo, o amor profundo,
o que, de mais divino, tem o transitório
de nossa breve passagem pela chamada vida.
Que nosso corpo e nosso nome apenas duram
naquilo que aos outros pudermos dar em plenitude.
quão pequeno me sinto,
perante o que será sempre igual.
Nesta brevidade do humano tempo de vida,
onde apenas é eterno o transcendente
e o semear.
Onde estas linhas que escrevo irão durar
mais do quem as escreve.
Se os papéis resistirem.
Se as palavras valerem para guardar.
Se amanhã alguém, ao lê-las,
sentir que é um pedaço de quem sou agora.
Eterno é também o sentimento que outros possam sentir.
Sobretudo, o amor profundo,
o que, de mais divino, tem o transitório
de nossa breve passagem pela chamada vida.
Que nosso corpo e nosso nome apenas duram
naquilo que aos outros pudermos dar em plenitude.
Soldado de crenças que sempre procurou servir
Aqui fica o registo dos pequenos passos que vou dando,
dos sinais de entrega que me diluem,
das causas e correntes que segui,
como soldado de crenças
que sempre procurou servir,
como militante anónimo de algo que vai além de mim.
Apetece partir para o tempo
de não sofrer mais tempo.
Há causas que outros,
por mim, hão-de cumprir,
que eu apenas por aqui resisto,
em nome daquela profunda corrente
que sempre foi além de mim.
dos sinais de entrega que me diluem,
das causas e correntes que segui,
como soldado de crenças
que sempre procurou servir,
como militante anónimo de algo que vai além de mim.
Apetece partir para o tempo
de não sofrer mais tempo.
Há causas que outros,
por mim, hão-de cumprir,
que eu apenas por aqui resisto,
em nome daquela profunda corrente
que sempre foi além de mim.
Esta dor, esta revolta
Sei que os meus escritos sofrem daquela saudosa melancolia,
típica dos que, não tendo perdido o sonho,
sentem o corpo sitiado pelas realidades de uma pátria que já não há.
Muitas vezes não me apetece escrever
sobre coisas políticas e sociais,
indo à raiz das palavras que me desnudam.
Porque, às vezes, a escrita é intimista demais,
para que outros a possam peregrinar.
Continuo a seguir esta viagem de viver
por dentro do temporal.
Mas comigo, segue uma longa tristeza.
Pessoal, familiar, patriótica.
Num tempo de crise em que me confundo
com os próprios destinos do meu povo.
Sobretudo, neste meu tempo
de questionar a aventura de escrever-me
e de escrever para os outros.
Esta interrogação sobre se vale a pena
meu continuar a insistir sobre o que sonho,
nesta permanente viagem à volta de mim mesmo,
esta dor, esta revolta.
Quão longe me sinto destes meus vizinhos conformistas,
sempre à procura da exacta consequência
que deriva do paralelograma de forças
onde se inserem
e de que são consequência.
Não pode ser esta a postura dos que ousam a insolência
e continuam à procura da autenticidade.
Por isso, aqui e agora, eis-me
na hora de continuar a viajar dentro de mim,
de procurar, por entre a bruma,
sinais que me possam libertar.
típica dos que, não tendo perdido o sonho,
sentem o corpo sitiado pelas realidades de uma pátria que já não há.
Muitas vezes não me apetece escrever
sobre coisas políticas e sociais,
indo à raiz das palavras que me desnudam.
Porque, às vezes, a escrita é intimista demais,
para que outros a possam peregrinar.
Continuo a seguir esta viagem de viver
por dentro do temporal.
Mas comigo, segue uma longa tristeza.
Pessoal, familiar, patriótica.
Num tempo de crise em que me confundo
com os próprios destinos do meu povo.
Sobretudo, neste meu tempo
de questionar a aventura de escrever-me
e de escrever para os outros.
Esta interrogação sobre se vale a pena
meu continuar a insistir sobre o que sonho,
nesta permanente viagem à volta de mim mesmo,
esta dor, esta revolta.
Quão longe me sinto destes meus vizinhos conformistas,
sempre à procura da exacta consequência
que deriva do paralelograma de forças
onde se inserem
e de que são consequência.
Não pode ser esta a postura dos que ousam a insolência
e continuam à procura da autenticidade.
Por isso, aqui e agora, eis-me
na hora de continuar a viajar dentro de mim,
de procurar, por entre a bruma,
sinais que me possam libertar.
Às vezes, a escrita é intimista demais
Às vezes, a escrita é intimista demais,
para que outros a possam peregrinar.
Especialmente quando escrevemos dessas palavras
que só podem ser escritas quando estamos sozinhos em casa
e assim podemos cumprir os tais necessários intervalos
de íntimo silêncio,
desligando o computador, as imagens e os sons.
Escrevendo sem porquê, para que, palavra a palavra,
nos libertemos, das angústias aos sonhos,
dos medos à esperança,
respirando todo o espaço dessa mais profunda liberdade
que é procurarmos olhar por dentro de quem na verdade somos,
nesse sonharmos e pensarmos, aqui e agora,
sem termos ninguém à beira
e até sem ousarmos confessar por escrito
aquilo que o corrupio das palavras nos suscitou.
para que outros a possam peregrinar.
Especialmente quando escrevemos dessas palavras
que só podem ser escritas quando estamos sozinhos em casa
e assim podemos cumprir os tais necessários intervalos
de íntimo silêncio,
desligando o computador, as imagens e os sons.
Escrevendo sem porquê, para que, palavra a palavra,
nos libertemos, das angústias aos sonhos,
dos medos à esperança,
respirando todo o espaço dessa mais profunda liberdade
que é procurarmos olhar por dentro de quem na verdade somos,
nesse sonharmos e pensarmos, aqui e agora,
sem termos ninguém à beira
e até sem ousarmos confessar por escrito
aquilo que o corrupio das palavras nos suscitou.
Estas palavras de um lirismo lusitano

Sempre estas palavras de um lirismo português,
estes ritmos quase automáticos
de um sonho por cumprir.
que nem eu próprio sei.
Quando o tempo me dá sinais
desse mar que há-de ser
e o vento que me leva
à flor que há-de vir
quando meu sonho
for para sempre.
Há um tempo que apetece
e há-de ser,
na manhã que semeamos dentro de nós.
Não, não digas mais de mim, em singular
mas da corrente que funda nos aprofunda,
quando o mar não dói dentro da espera
do que teu signo me trouxer
e o tempo que moldámos nos disser:
que venham rios de bruma,
que o tempo todo nos traga as arribas do medo.
Olharemos de frente o sol do tempo.
Há um mar por descobrir
Qualquer coisa que, de mais além, me prende

Sinto que há qualquer coisa que, de mais além, me prende,
neste processo de viver, nesta prisão de procurar.
Porque mesmo quando me deixo perder
nos meandros da leitura de um romance,
a minha imaginação vai enchendo de desejos
os quadros abstractos da ficção.
Vai dando corpo à etérea procura
que marca o ritmo desta vida sem porquê,
só porque é alto o desígnio que me movimenta,
esta dispersão aparente de quem só consegue explodir
quando se deixa abrasar por um sistema mobilizador.
E há palavras que me prendem
a esse qualquer coisa de muito íntimo
que me faz desenrolar em viagem.
Quando as próprias descrições da ficção despertam as vivências
que me arrastam nesse abraço do impossível,
onde não há cilício de racionalidade
que consiga deter o prazer de certas memórias de vida.
Falta ainda muita viagem por cumprir

Quando pudermos dizer, como Pessoa, "tudo pela humanidade, nada contra a nação", mas desde que cada nação seja entendida como caminho para "uma super-nação futura".
Falta ainda muita viagem por cumprir
para que os homens de boa vontade
possam varar as tormentas
e procurar a boa esperança
de um novo caminho
que nos dê humanidade,
quando o ser vencer o ter,
quando o amor vencer a guerra.
Quando tratarmos o nosso outro
como o próximo,
o vizinho,
o conterrâneo,
o compatriota,
o irmão.
Quando, sem negarmos as pequenas pátrias
e as grandes pátrias, soubermos ascender à terra dos homens,
à cosmopolis
e as grandes pátrias, soubermos ascender à terra dos homens,
à cosmopolis
Quando vencermos os impérios que nos invadem,
de forma visível e invisível,
pelo mercado
ou pela colonização cultural.
de forma visível e invisível,
pelo mercado
ou pela colonização cultural.
Quando, de mãos livres,
pudermos ter fé no homem,
no seu destino
ou no seu transcendente.
pudermos ter fé no homem,
no seu destino
ou no seu transcendente.
Quando o abraço armilar nos voltar a aquecer.
Não, ainda vivemos nas guerras civis ideológicas,
nas guerras frias culturais,
e, sobretudo, nas guerrazinhas de homenzinhos,
desses que são marcados pela vontade de poder,
nesta anarquia mansa que, subterraneamente, nos amarfanha
pelas longas teias da cobardia,
que geram as sucessivas ditaduras
do situacionismo e da incompetência.
Insurge-te
contra este mais do mesmo,
desobedece
aos compadres e comadres desta partidocracia,
não admitas que, no espaço público,
em nome das razões de Estado,
se pratique aquilo que rejeitas
em tua casa,
na tua família,
na tua rua,
na tua terra.
Volta a ser um homem livre,
não tenhas medo!
Não, ainda vivemos nas guerras civis ideológicas,
nas guerras frias culturais,
e, sobretudo, nas guerrazinhas de homenzinhos,
desses que são marcados pela vontade de poder,
nesta anarquia mansa que, subterraneamente, nos amarfanha
pelas longas teias da cobardia,
que geram as sucessivas ditaduras
do situacionismo e da incompetência.
Insurge-te
contra este mais do mesmo,
desobedece
aos compadres e comadres desta partidocracia,
não admitas que, no espaço público,
em nome das razões de Estado,
se pratique aquilo que rejeitas
em tua casa,
na tua família,
na tua rua,
na tua terra.
Volta a ser um homem livre,
não tenhas medo!
Lá em baixo ficou o meu heterónimo

Lá em baixo ficou o meu heterónimo
cidadão da República Portuguesa,
com o filofax cheio de compromissos
e alguns impostos para tratar.
Lá em baixo ficaram suspensas
as cadeias que me ligam às abstractas entidades do senhor Estado,
do senhor emprego
e à rotina estonteante de querer ser fiel
a uma família clássica numa sociedade de consumo,
quase afluente,
que é tão individualista quanto colectivista,
mais marcada pela violência do Leviathan hobbesiano,
pai do capitalismo e do estadualismo
do que pelo messianismo de Marx
ou pelo romantismo de Rousseau.
Por lá ficaram os cartões de plástico
que me situam nas teias de controlo do big brother
desse totalitarismo suave em que nos vamos escravizando,
do número fiscal, ao cartão multibanco,
da carta de condução às fichas dos seguros,
esses inúmero dígitos que nos procuram localizar,
prender, sitiar.
Apenas quero um breve intervalo de tempo
onde procure esquecer as coisas que todos os dias tenho de fazer, num quadriculado de horários, agendas, deveres,
prazos, projectos, programas e frustrações.
Mas o tempo não está para filosofices ou politiqueirices,
mas para sentir os pormenores da paisagem.
Ter a liberdade de um pássaro peregrinando a paisagem,
acariciar o chão de caruma
e percorrer o espaço destas matas que nos restam.
E, navegando a manhã, vou deitando para o lixo
o odor dos sonhos negativos que me atormentam.
Porque apetece continuar feliz
e poder olhar os outros, olhos nos olhos,
sem o calculismos dos que encenam
aquelas parecenças que destroem as chamadas relações sociais. Apetece esta saudade de mar,
as ondas pequenas do bom tempo,
a limpeza das areias infinitas
e os passeios na maré baixa, de falésia a falésia,
assim diante de quem sou.
Para meu lugar buscar

De mar a mar, peregrinar,
para o meu lugar buscar.
Perder o fuso do tempo
onde meu nome se regista
e resistir na aventura
de novo tempo me avivar.
Quebrar o poiso das algemas,
e esvoaçar sem teoria
para, no intervalo da viagem,
recobrar alento de criar.
Esquecer noites de relento,
para me esquecer
e poder voltar a ser
apenas o meu próprio viajar.
Cansado de tantas teorias, escrevinhar,
escrevinhar à toa, retomando o prazer
de a mim mesmo me escrever,
de em palavras me vestir,
para, em palavras, me esconder.
Assim, sem mais,
somente dentro de mim,
sorvendo as vagas do silêncio.
Buscar nos silêncios que apetecem
o sabor dos dias que não tenho.
Enfim, viajar.
Viajar de mar a mar,
de Oriente a Ocidente.
Me viajar.
Comigo me viajar.
Sentir outra gente,
outras paragens,
para melhor me poder sentir.
dezembro 17, 2008
O que segue não é um desses livros pesadamente científicos em que me tenho perdido

O que segue não é um desses livros pesadamente científicos em que me tenho perdido, mas antes reportagens íntimas que pretendem ser uma breve peregrinação interior pelas sensações de uma viagem à volta das minhas circunstâncias, onde o sujeito escrevente tentou deixar de ser simples placa registadora das ocorrências, mas sem a pretensão de se assumir como uma máquina de projectar preconceitos e ideias feitas sobre esse terreno novo que calcorreou.
Pretendi apenas escrever ao sabor das ondas da realidade, descrevendo as sensações por que vou passando numa reportagem interior. Tive, sobretudo, a intenção de perder-me na multidão das coisas e das gentes que acontecerem, mas continuando a saber o de onde venho e o para onde vou, visionando-me como uma espécie de centro do mundo, à volta do qual vai girando todo o universo. Tentei, assim, procurar o universal no respeito pelas diferenças, acentuando o intraduzível de uma civilização estranha, para poder expatriar-me a partir das minhas próprias origens.
Estes escritos, se, por um lado, são marcados por quem, dentro da pátria, em pleno exílio, foi cultivado, pelo activismo da revolta política e social, sofre também dos excessos daquele lirismo bem lusitano, saudosamente melancólico, típico dos que, não tendo perdido o sonho, sentem o corpo sitiado pelas realidades de uma pátria que já não há.
Preciso de intimidade, de um qualquer cantinho para me escrever assim em directo, porque os escritos íntimos publicáveis só podem existir quando, entre o acto de escrevê-los e o de publicá-los, medeia o simples tempo de um clique que os lance mundo fora, nesta forma de comunicação quase imediatista, mas ligada necessariamente ao arquivo do eterno, que cada um guarda dentro de si.
Mesmo aquilo que por outros já foi pensado
tem que ser, por nós, repensado,
para lhe acrescentarmos a mais valia do actualismo,
o estampido de viver,
para lhe darmos a realidade das circunstâncias
e o sopro do nosso próprio eu.
Sem essa fluidez de vitalismo
não há corrente de pensamento
e apenas continuaremos a rastejar
nesta unidimensionalidade acrítica e não criativa
onde nos vamos estupidificando.
Sem imaginação não há efectiva razão. A palavra é sempre um rio que procura sua foz desde que brota da nascente. É sempre a procura do discurso, sempre a procura de si mesmo. Porque a palavra corre o texto em seu discurso, sem margens que a contenham, sem represas que a proíbam. E apetece ser palavra, ser corrente, águas de uma vida que ninguém detenha, ser palavra à procura da minha foz, à procura do sentido que deu para si mesma, no tempo do tempo voltar a ter seu tempo.
Talvez estes escritos não passem de confissões de um vencido da vida, de alguém que persiste em cumprir seus sonhos de menino-homem e que, sem ir à procura do tempo perdido, sonhando voltar atrás, ainda tem daquelas saudades de futuro que não se confundem com a procura de uma felicidade absoluta que já não há.
Do mesmo modo, nunca me moveram as utopias dos amanhãs que contam, preferindo o sentido de um destino por cumprir. Continuo à procura de um acordo comigo mesmo e por causa dessa lealdade básica, não temo poder vir estar em desacordo com todos os outros.
E aqui vos deixo este livro de um cúmplice manuscrever-me, neste prazer de uma escrita que sempre começou por ser a manuscrita, assim ao correr da pena, por sobre o tempo que passa. E neste anything book, o meu qualquer coisa será espraiar um pensamento à solta, livre das teias da metodologia científica e dos rigores do tratamento do texto doutoral, onde vou parando para me pensar, deixando de ser um simples joguete de um quotidiano saltitante. Neste parar para escrever-me, acariciando os pequenos nadas da existência.
Que neste tempo de ser e de sofrer,
há um intenso prazer nas frases que resguardamos em surdina, quando elas nos saem imprevistas,
quando as mãos escrevem mais rápidas do que o pensamento,
quando a pulsão de escrever-me
me obriga a ter de estar aqui,
diante do papel,
vencendo a tentação das outras tarefas
que tinha de fazer.
Sobretudo quando cansa usar o teclado mecânico
dessas máquinas de memórias, chamada computador,
quando apetece que as palavras se assumam
na beleza dos sinais que vão sulcando
estes cadernos cheios de folhas onde me devasso.
Sobretudo, este prazer de me escrever
e descrever
num qualquer caderno de folhas virgens,
onde temos que imprimir nosso viver,
onde temos que vencer
estas névoas do quotidiano
que nos impedem e proíbem
a procura,
quando podemos ser quem sonhamos ser
se o carácter resistir
e soubermos vencer
as penumbras que nos comprimem
Continuo bandeirante e sertanejo à procura desse qualquer coisa que não tenho e que me traga momentos de felicidade. Um qualquer sítio que me dê Deus, pátria, amor e casa, onde me possa reconciliar com o cosmos, os bichos, as belgas de terra, as águas das regueiras e o arvoredo da infância.
E apetece o escrever do português à solta, pelos grandes espaços das terras de fronteira, que não este português acotovelado nas restritas assoalhadas de prédios sem alma, periurbanos e pós-revolucionários. Desses que não entendem o Tejo como o estuário onde vão dar todas as aldeias e rios de Portugal.
Porque lá na pequena pátria onde nasci chamam à nascente da plácida ribeira que banha a minha aldeia e onde um dos braços passava por baixo da minha casa, olho marinho. E também eu dou à matriz das águas a fundura da foz procurada. Porque acredito que, por debaixo das areias onde gorgulham as bolhas da nascente, há misteriosas funduras que vão dar ao mar. Onde o princípio tem de ser o fim e o destino é nascer de novo, todos os dias, nessa procura da eternidade que desde sempre vivi.
Talvez estes escritos não passem de confissões de um vencido da vida, de alguém que persiste em cumprir seus sonhos de menino-homem e que, sem ir à procura do tempo perdido, sonhando voltar atrás, ainda tem daquelas saudades de futuro que não se confundem com a procura de uma felicidade absoluta que já não há.
Do mesmo modo, nunca me moveram as utopias dos amanhãs que contam, preferindo o sentido de um destino por cumprir. Continuo à procura de um acordo comigo mesmo e por causa dessa lealdade básica, não temo poder vir estar em desacordo com todos os outros.
E aqui vos deixo este livro de um cúmplice manuscrever-me, neste prazer de uma escrita que sempre começou por ser a manuscrita, assim ao correr da pena, por sobre o tempo que passa. E neste anything book, o meu qualquer coisa será espraiar um pensamento à solta, livre das teias da metodologia científica e dos rigores do tratamento do texto doutoral, onde vou parando para me pensar, deixando de ser um simples joguete de um quotidiano saltitante. Neste parar para escrever-me, acariciando os pequenos nadas da existência.
Que neste tempo de ser e de sofrer,
há um intenso prazer nas frases que resguardamos em surdina, quando elas nos saem imprevistas,
quando as mãos escrevem mais rápidas do que o pensamento,
quando a pulsão de escrever-me
me obriga a ter de estar aqui,
diante do papel,
vencendo a tentação das outras tarefas
que tinha de fazer.
Sobretudo quando cansa usar o teclado mecânico
dessas máquinas de memórias, chamada computador,
quando apetece que as palavras se assumam
na beleza dos sinais que vão sulcando
estes cadernos cheios de folhas onde me devasso.
Sobretudo, este prazer de me escrever
e descrever
num qualquer caderno de folhas virgens,
onde temos que imprimir nosso viver,
onde temos que vencer
estas névoas do quotidiano
que nos impedem e proíbem
a procura,
quando podemos ser quem sonhamos ser
se o carácter resistir
e soubermos vencer
as penumbras que nos comprimem
Continuo bandeirante e sertanejo à procura desse qualquer coisa que não tenho e que me traga momentos de felicidade. Um qualquer sítio que me dê Deus, pátria, amor e casa, onde me possa reconciliar com o cosmos, os bichos, as belgas de terra, as águas das regueiras e o arvoredo da infância.
E apetece o escrever do português à solta, pelos grandes espaços das terras de fronteira, que não este português acotovelado nas restritas assoalhadas de prédios sem alma, periurbanos e pós-revolucionários. Desses que não entendem o Tejo como o estuário onde vão dar todas as aldeias e rios de Portugal.
Porque lá na pequena pátria onde nasci chamam à nascente da plácida ribeira que banha a minha aldeia e onde um dos braços passava por baixo da minha casa, olho marinho. E também eu dou à matriz das águas a fundura da foz procurada. Porque acredito que, por debaixo das areias onde gorgulham as bolhas da nascente, há misteriosas funduras que vão dar ao mar. Onde o princípio tem de ser o fim e o destino é nascer de novo, todos os dias, nessa procura da eternidade que desde sempre vivi.
Não guardarei segredo

Não guardarei segredo
e a todos poderei dizer
que amanhã serei
o próprio sonho que sonhei
feito viagem.
Foi aqui e foi assim
e assim será para sempre
um tempo de areia e urze,
que foi assim que apeteceu que fosse.
Foi assim, na margem de quem sou,
na ponte que me levou ao sonho,
onde, além de mim,
venci quem fui
e me atravessei
Foi aqui que, contigo,
vivi pela primeira vez
quem sempre fomos.
E aqui seremos plenitude,
se vencer a força de sonharmos
e o mar nos der
a ira de chegarmos
dentro de nós, além de nós.
outubro 09, 2004
No Martim Moniz
No Martim Moniz, onde havia a Mouraria,
feira todos os dias
onde todos compram de tudo:
meias, fatos, fotos,
todos os cacos de um negócio ambulante
contrabandista:
estereofonia made in taiwan,
calças de marca feitas no minho,
sapatilhas de macau.
Feira de pretos, brancos, ciganos,
hindus,, soldados, retonados,
feira de todo o mundo às portas da Europa
Se vendem santinhos numa gaiola prefabricada
decorada à maneira de Lisboa antiga.
Um ervanário agora dito macrobiótica
tem ervas pró rins e prós intestinos
Mais adiante, numa tasca cheirando a fritos,
untosos hamburguers, em vez de pregos e bifanas.
Bacalhau à mouraria
é sempre prato do dia
feira todos os dias
onde todos compram de tudo:
meias, fatos, fotos,
todos os cacos de um negócio ambulante
contrabandista:
estereofonia made in taiwan,
calças de marca feitas no minho,
sapatilhas de macau.
Feira de pretos, brancos, ciganos,
hindus,, soldados, retonados,
feira de todo o mundo às portas da Europa
Se vendem santinhos numa gaiola prefabricada
decorada à maneira de Lisboa antiga.
Um ervanário agora dito macrobiótica
tem ervas pró rins e prós intestinos
Mais adiante, numa tasca cheirando a fritos,
untosos hamburguers, em vez de pregos e bifanas.
Bacalhau à mouraria
é sempre prato do dia
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