Chegou, de repente, um pedaço de céu azul.
E o meu irmão pardal escapou-se
largando o espaço
onde minhas mãos o poderiam acariciar.
Apeteceu-lhe também não ter gaiola,
horários, calendários e agendas
nesse ter que fazer, para se fingir viver,
entre cartas de bancos, declarações de impostos
e outras algemas de uma cidadania
de trabalhador por conta de outrem,
beneficiário e contribuinte
por causa da assistência na doença
e subsídio para o funeral
deste belo Estado de Bem Estar.
E lá vem o sol, antes de ser poente.
E toda a barra fica plena deste azul de Lisboa,
desta luz a mais que nos dá desejo
de viver intensamente,
apetecendo sentir a música que me chega
destes sinais de primavera.
É a luz que me alumia e me dá sonho.
E força para vencer as nuvens e penumbras
que me toldam o silêncio.
E fui ao fundo das águas.
E, livremente preso,
me veio o doce prazer do movimento,
de poder cumprir o desafio de atravessar o rio
que nos separa.
Navegar para a outra banda,
derrubando a margem,
nesta procura por onde me vou buscando,
neste prazer de viajar em mim,
dentro de mim,
dando o meu corpo ao movimento,
em busca de um sonho que não acho.
E assim disperso pelos pedaços de vida
que, apesar de vivida, continuo a procurar,
fui peregrinando rumo à linha que limita
a minha vida,
esse risco de bruma que vai além
do que sinto e penso.
Que apetecia viver e reviver,
procurar longe daqui,
um qualquer lugar que apenas fosse meu,
um lugar onde pudesse regressar
a quem na verdade sou.
O lugar onde poisar meu verso,
a palavra prometida
que resguardo em sonho,
mesmo quando penso deter
as mãos fechadas que me dão revolta.
E sempre este sonho de procurar quem somos,
nas ruas abertas à brisa suave.
dezembro 18, 2008
Navegar para a outra banda, derrubando a margem
Apetecia poder sair daqui, permanecendo aqui.
Olhar daqui, por dentro de mim,
sulcando quem poderei ser,
neste vaivém do sonho
que tenho
e não tenho.
Apetecia continuar a sentir o silêncio da beira rio,
viver o ritmo das águas vão batendo
nas pedras do cais,
ficar assim, nesta margem de mim mesmo,
onde posso passar sempre à outra banda.
Apetecia partir dentro de mim
para o meu próprio lugar achar,
agora que me vai doendo a nostalgia do exilado,
o estar aqui sem ser daqui,
e sem sequer me apetecer fingir que sou daqui.
Que meu lugar é ter lugar longe daqui,
em sítio de sereno viajar,
peregrinando pinheirais de bruma
e praias de areias longas.
Neste vaivém, onde estou quem não sou,
É em saudades que me volvo
e me converto.
Sei que sou quem não estou
e que apetecia largar de mim
a amargura de procurar viver
meu signo.
Porque tenho a noção exacta dos meus próprios limites,
da minha falta de força para suster forças
bem mais fortes do que os meus braços
e que, por isso, se quebra o encanto
daquela luz que brilhou em mim,
neste dias de sonho sofrido.
Olhar daqui, por dentro de mim,
sulcando quem poderei ser,
neste vaivém do sonho
que tenho
e não tenho.
Apetecia continuar a sentir o silêncio da beira rio,
viver o ritmo das águas vão batendo
nas pedras do cais,
ficar assim, nesta margem de mim mesmo,
onde posso passar sempre à outra banda.
Apetecia partir dentro de mim
para o meu próprio lugar achar,
agora que me vai doendo a nostalgia do exilado,
o estar aqui sem ser daqui,
e sem sequer me apetecer fingir que sou daqui.
Que meu lugar é ter lugar longe daqui,
em sítio de sereno viajar,
peregrinando pinheirais de bruma
e praias de areias longas.
Neste vaivém, onde estou quem não sou,
É em saudades que me volvo
e me converto.
Sei que sou quem não estou
e que apetecia largar de mim
a amargura de procurar viver
meu signo.
Porque tenho a noção exacta dos meus próprios limites,
da minha falta de força para suster forças
bem mais fortes do que os meus braços
e que, por isso, se quebra o encanto
daquela luz que brilhou em mim,
neste dias de sonho sofrido.
Se eu pudesse voar sobre quem somos
Se eu pudesse voar sobre quem somos,
vencendo o medo que tivemos dentro de nós.
Se pudesse chegar o tempo de dizermos mais,
o que um ao outro jamais dissemos.
Nas mãos a que nos demos e onde tecemos,
dedos cruzados, o calor que há-de vencer
o frio da espera.
A noite não terá fim nesse cais suspenso sobre o lodo
e em teu corpo deporei a flor do tempo que virá.
Que só contigo eu sei dizer amor,
olhos nos olhos, viver amor,
corpos nos corpos,
sem ter que me esconder
de quem na verdade sou.
Sim, eu sei o que só nós dois sabemos
e que um dia será para sempre,
porque o tempo nos deu espera,
porque a espera nos deu signo,
para que o novo tempo nos traga
a força de quem somos.
vencendo o medo que tivemos dentro de nós.
Se pudesse chegar o tempo de dizermos mais,
o que um ao outro jamais dissemos.
Nas mãos a que nos demos e onde tecemos,
dedos cruzados, o calor que há-de vencer
o frio da espera.
A noite não terá fim nesse cais suspenso sobre o lodo
e em teu corpo deporei a flor do tempo que virá.
Que só contigo eu sei dizer amor,
olhos nos olhos, viver amor,
corpos nos corpos,
sem ter que me esconder
de quem na verdade sou.
Sim, eu sei o que só nós dois sabemos
e que um dia será para sempre,
porque o tempo nos deu espera,
porque a espera nos deu signo,
para que o novo tempo nos traga
a força de quem somos.
O mistério de, contigo, ser mais eu

Apetecia ser contigo,
ser assim bem mais do que eu,
ser contigo,
ser o nós,
e ser por nós, à tua beira.
Ser contigo para ser mais eu,
e sermos, sem sinais de angústia,
nem restos empedernidos da invernia.
Apetecia, contigo,
olhar de frente
quem, na verdade, somos,
sem a carga dos versos por cumprir.
Que o vento me traga
quem na verdade sou.
Os sinais do sítio para onde vou.
As vagas de um mar por descobrir.
Sinais de silêncio,
restos de vento.
Que versos, dispersos, alumiem
quem na verdade sou.
Apetecia viajar à beira de quem fomos,
de quem somos,
perto do rio
que em seu vaivém
nos deu corrente.
Ter suave vertigem do amanhã,
brasa de um fogo por cumprir,
risco de um além
que talvez um dia possa ser,
nesse tempo por cumprir.
Apetecia ser contigo,
assim à tua beira,
sem sinais de angústia,
nem restos da empedernida invernia,
para sermos mais do que nós.
Apetecia, contigo, olhar de frente
quem, na verdade, somos.
Para que o vento nos traga
sinais do sítio para onde vamos.
Em versos, dispersos, por cumprir,
que nos dêem as vagas de um mar por descobrir.
Apetecia viajar à beira de quem fomos,
perto do rio que em seu vaivém nos deu corrente.
Para voltarmos a ser
a suave vertigem do amanhã,
a brasa de um fogo que nos dê
o dia que há-de ser.
Foram lábios feitos navios
Sei que não dissemos a palavra amor,
mas também sei
que foi amar o que nos aconteceu.
Como aquele abanar do vento,
feito estampido,
que venceu os tímpanos do tempo.
Sei que só nós sabemos como foi
e que o segredo de nada dizermos,
tanta coisa nos disse,
nesses silêncios da noite.
E sei também que apetecia poder voltar
a ser essa breve viagem de mãos dadas,
de corpos dados,
quando dois seres que nunca se repetem
viveram um acontecer
que nunca mais será como foi
dessa primeira vez.
Houve um menino homem, em sua procura de viver,
farto de sustentar os pesos da angústia
que, em teu corpo de mulher menina,
procurou que acontecessem frutos, flores,
sombras nocturnas de primavera,
uma cama feita caruma seca de pinhal
e o tecto pleno de estrelas
num quarto aberto ao sinal do horizonte.
mas também sei
que foi amar o que nos aconteceu.
Como aquele abanar do vento,
feito estampido,
que venceu os tímpanos do tempo.
Sei que só nós sabemos como foi
e que o segredo de nada dizermos,
tanta coisa nos disse,
nesses silêncios da noite.
E sei também que apetecia poder voltar
a ser essa breve viagem de mãos dadas,
de corpos dados,
quando dois seres que nunca se repetem
viveram um acontecer
que nunca mais será como foi
dessa primeira vez.
Houve um menino homem, em sua procura de viver,
farto de sustentar os pesos da angústia
que, em teu corpo de mulher menina,
procurou que acontecessem frutos, flores,
sombras nocturnas de primavera,
uma cama feita caruma seca de pinhal
e o tecto pleno de estrelas
num quarto aberto ao sinal do horizonte.
Apetecia o verbo amar no plural
Apetecia, aqui e agora,
Escrever, escrever-te
longa carta de amar-te,
assim letra a letra, sobre o papel,
com a força antiga e perfumada
de uma esperança viva, rediviva.
Apetecia não temer
dar nome ao proibido,
dizendo que são breves
as nuvens que nos toldam o sonho.
Apetecia ter a força inteira
de, contigo, reviver o mar sem fim.
Escrever, escrever-te
longa carta de amar-te,
assim letra a letra, sobre o papel,
com a força antiga e perfumada
de uma esperança viva, rediviva.
Apetecia não temer
dar nome ao proibido,
dizendo que são breves
as nuvens que nos toldam o sonho.
Apetecia ter a força inteira
de, contigo, reviver o mar sem fim.
Numa rua qualquer desta cidade antiga
Numa rua qualquer desta cidade antiga,
com o sol doirando a sombra dos plátanos
e reflectindo-se suavemente
nas vidraças da casa em frente,
é nele que vou buscar a força que preciso
para reflectir por escrito
alguns pedaços de quem sou,
aqui sentado neste escrever-me,
rescrever-me e repensar-me,
sem a angústia típica da frustração.
Que ontem, salgadamente, voltei a ser gaivota
peregrina
que se assenhoreia de um qualquer ilhéu
abandonado,
onde, de velas pandas, me naveguei,
sustendo as cordas que me livraram de sofrer
um golpe da retranca.
Porque fui de mar em mar, dentro de mim,
conseguindo olhar de frente
as sombras da memória proibida,
lá passei para a outra margem, mas sem sair de mim.
Que apeteceu, à noite, sorver o frio da maresia,
quando a viagem me fez regresso ao lar.
E quem sou pôde sorver as vagas do que há-de ser.
E até conseguiu contar e recontar histórias da infância,
desde os professores primários todos
que me deram a cultura que ainda hoje tenho,
aos padres de Santa Justa, a minha igreja,
que não deixei de ter,
desde o padre Paulo que jogava bem à bola,
ao padre Hilário que era italiano e grande.
E me vieram sabores de pedra e talha dourada,
galhetas com vinho de missa
e o cheiro queimado do turíbulo
e o som da missa em latim
e o pequeno-almoço em casa dos padres,
com grandes canecas de café com leite
e torradas com pão de mistura,
que custava dezassete tostões.
Como se o tempo fosse afinal
uma permanência que, passando, nos relembra,
assim ficando vivo no fundo da memória.
Sabe tão bem contar-te e recordar-me,
das histórias de uma infância em que fui feliz
e me fez menino para toda a vida.
Mais os passeios que dava com meu pai,
para vermos futebol no campo da Arregaça
e nadarmos no Choupal.
Ou das conversas que tinha ao borralho da minha avó.
Ou dos brinquedos que eram rolos de madeira
dos velhos mata-borrões.
Ou as muitas tábuas e serradura
que sobravam da oficina do meu avô,
com o Ezequiel, sempre emborrachado,
mas bom filho de sua mãe,
ao Serafim, com tarocas de madeira e coiro,
bem circunspecto e cumpridor,
que tinha de educar a filha.
E na memória cabem as boas lembranças
das casas da minha aldeia,
quando não havia frigoríficos nem fogões a gás,
mas mosqueiros, salgas, grelhas e fogões a lenha,
que tinham daquelas batatas fritas em azeite,
cujo sabor nunca mais voltou.
com o sol doirando a sombra dos plátanos
e reflectindo-se suavemente
nas vidraças da casa em frente,
é nele que vou buscar a força que preciso
para reflectir por escrito
alguns pedaços de quem sou,
aqui sentado neste escrever-me,
rescrever-me e repensar-me,
sem a angústia típica da frustração.
Que ontem, salgadamente, voltei a ser gaivota
peregrina
que se assenhoreia de um qualquer ilhéu
abandonado,
onde, de velas pandas, me naveguei,
sustendo as cordas que me livraram de sofrer
um golpe da retranca.
Porque fui de mar em mar, dentro de mim,
conseguindo olhar de frente
as sombras da memória proibida,
lá passei para a outra margem, mas sem sair de mim.
Que apeteceu, à noite, sorver o frio da maresia,
quando a viagem me fez regresso ao lar.
E quem sou pôde sorver as vagas do que há-de ser.
E até conseguiu contar e recontar histórias da infância,
desde os professores primários todos
que me deram a cultura que ainda hoje tenho,
aos padres de Santa Justa, a minha igreja,
que não deixei de ter,
desde o padre Paulo que jogava bem à bola,
ao padre Hilário que era italiano e grande.
E me vieram sabores de pedra e talha dourada,
galhetas com vinho de missa
e o cheiro queimado do turíbulo
e o som da missa em latim
e o pequeno-almoço em casa dos padres,
com grandes canecas de café com leite
e torradas com pão de mistura,
que custava dezassete tostões.
Como se o tempo fosse afinal
uma permanência que, passando, nos relembra,
assim ficando vivo no fundo da memória.
Sabe tão bem contar-te e recordar-me,
das histórias de uma infância em que fui feliz
e me fez menino para toda a vida.
Mais os passeios que dava com meu pai,
para vermos futebol no campo da Arregaça
e nadarmos no Choupal.
Ou das conversas que tinha ao borralho da minha avó.
Ou dos brinquedos que eram rolos de madeira
dos velhos mata-borrões.
Ou as muitas tábuas e serradura
que sobravam da oficina do meu avô,
com o Ezequiel, sempre emborrachado,
mas bom filho de sua mãe,
ao Serafim, com tarocas de madeira e coiro,
bem circunspecto e cumpridor,
que tinha de educar a filha.
E na memória cabem as boas lembranças
das casas da minha aldeia,
quando não havia frigoríficos nem fogões a gás,
mas mosqueiros, salgas, grelhas e fogões a lenha,
que tinham daquelas batatas fritas em azeite,
cujo sabor nunca mais voltou.
Nas leiras abertas pelos sulcos da procura
Há pedaços de quem sou,
nas leiras abertas pelos sulcos da procura.
Cheguei e logo fiz a pedestre peregrinação pelas minhas recordações açorianas. A velha pensão onde tive a ilusão de um caminho que nunca cheguei a percorrer,
a euforia do porto,
a placidez do mar em volta
e a ilha que conheço,
profunda,
enquanto me foi chegando o micaelense
das conversas desta gente antiga.
E lá vou olhando ao longe
o que então procurei em sonho.
E lá vou sentindo
o vazio de já não poder chegar.
Não dizer nada,
deixar que o tempo sossegue
a inquietude,
que a bruma se desfaça à luz do sol,
que o sonho reverdeça os ramos decepados,
que um tronco em flor nos dê alento.
Pode haver tanta vida à nossa beira,
tantos dias de beleza,
de mãos dadas.
Pode haver um tempo de pureza, um rio de fogo galgando as águas e uma casa de silêncios para ocupar. Pode haver quem somos, pode haver mar, à beira da lava negra e da pedra que esmaga o grão. Mesmo aqui, onde as nuvens, a terra e o mar se confundem, no branco cinzento do mau tempo, entre gaivotas, barcos e telas, neste leve chumbo de fundo azul.
nas leiras abertas pelos sulcos da procura.
Cheguei e logo fiz a pedestre peregrinação pelas minhas recordações açorianas. A velha pensão onde tive a ilusão de um caminho que nunca cheguei a percorrer,
a euforia do porto,
a placidez do mar em volta
e a ilha que conheço,
profunda,
enquanto me foi chegando o micaelense
das conversas desta gente antiga.
E lá vou olhando ao longe
o que então procurei em sonho.
E lá vou sentindo
o vazio de já não poder chegar.
Não dizer nada,
deixar que o tempo sossegue
a inquietude,
que a bruma se desfaça à luz do sol,
que o sonho reverdeça os ramos decepados,
que um tronco em flor nos dê alento.
Pode haver tanta vida à nossa beira,
tantos dias de beleza,
de mãos dadas.
Pode haver um tempo de pureza, um rio de fogo galgando as águas e uma casa de silêncios para ocupar. Pode haver quem somos, pode haver mar, à beira da lava negra e da pedra que esmaga o grão. Mesmo aqui, onde as nuvens, a terra e o mar se confundem, no branco cinzento do mau tempo, entre gaivotas, barcos e telas, neste leve chumbo de fundo azul.
Sei que nunca irei por aí

Eu, pelo menos, sem saber tudo o que quero,
sei perfeitamente o que não quero
e sei que nunca irei por aí,
pisando terrenos armadilhados pelas minas da subserviência,
por todas essas procuras de uma qualquer prebenda
que nos seja dada pela cunha
ou pelas habituais manigâncias politiqueiras
ou eclesiásticas,
dessas alfurjas, lojecas e pequenas cortes
de um mundo que já não há.
Não queiras servir ilusórios bobos
de reizinhos já sem reino.
Que tenhas as mãos livres
e que escrevas o que pensas
na altura certa,
para poderes seguir livre
o teu próprio sonho.
Vale mais que olhes o sol de frente,
mesmo que morras em combate
ou que venhas a ser condenado por fuzilamento de ódios.
Deixa algumas sementes de beleza
e muito amor por cumprir.
Que, de ti, ninguém possa dizer, um dia,
que se vendeu pela posta ou pela comenda.
Sê livre!
Que sejas sempre um homem livre,
desses que cumprem o dever de serem sempre
bons filhos de seus pais honrados.
Não temas alinhar com a contra-corrente
e até com o contra-poder.
Tem a coragem de seres minoria,
não tenhas medo de apostar
naquela conduta que não está dependente do aleatório
de uma escolha arbitral ou de um resultado eleitoral.
Pode não ter razão quem vence.
Pode ter razão quem perde.
Há homens de sucesso que não sabem
onde fica o seu próprio norte.
Todas as semanas o carteiro nos trazia
Todas as semanas o carteiro nos trazia
carta da tia,
falando de uma cidade onde todos eram senhores:
tinham automóvel, vivendas,
passeavam na África do Sul
e iam à praia quando nós tínhamos Inverno.
Queridos pais, irmãos e demais família,
estou a construir uma casa nova
e dentro mando uma cautela premiada
para a mãe comer melhor.
Chegou a carta de papel tão leve,
bordada a verde e vermelho,
por avião, par avion, by air mail:
A Lena já sabe inglês e a Isabel comprou uma motoreta.
carta da tia,
falando de uma cidade onde todos eram senhores:
tinham automóvel, vivendas,
passeavam na África do Sul
e iam à praia quando nós tínhamos Inverno.
Queridos pais, irmãos e demais família,
estou a construir uma casa nova
e dentro mando uma cautela premiada
para a mãe comer melhor.
Chegou a carta de papel tão leve,
bordada a verde e vermelho,
por avião, par avion, by air mail:
A Lena já sabe inglês e a Isabel comprou uma motoreta.
O Império morreu no meu quintal
As Áfricas deram-lhe a viuvez,
o paludismo
e cinco filhos.
Porque marido, todo janota,
por lá ficou,
desfeito em pó,
e ela voltou tão pobre
quanto partira.
Oh menino, aquilo era pior que a nossa terra
ruas de terra batida
e os pretos todos à nossa beira.
Sobretudo a nossa bandeira.
E foi num dia de começo do Verão do ano de 1974
que, com a senhora Maria, minha vizinha,
depois do discurso presidencial do abandono,
que os dois, em silêncio.
decidimos arrear
o sonho daquela bandeira azul e branca,
que, num mastro de cana, eu erguera
no quintal.
o paludismo
e cinco filhos.
Porque marido, todo janota,
por lá ficou,
desfeito em pó,
e ela voltou tão pobre
quanto partira.
Oh menino, aquilo era pior que a nossa terra
ruas de terra batida
e os pretos todos à nossa beira.
Sobretudo a nossa bandeira.
E foi num dia de começo do Verão do ano de 1974
que, com a senhora Maria, minha vizinha,
depois do discurso presidencial do abandono,
que os dois, em silêncio.
decidimos arrear
o sonho daquela bandeira azul e branca,
que, num mastro de cana, eu erguera
no quintal.
O Chico Pulga das bicicletas
O Chico Pulga já não arranja bicicletas, motorizadas,
furos, correntes ou guiadores.
Agora já não há ninguém que me dê arcos
esses aros de bicicleta
com que viajámos em fantasia.
O filho do Chico, Pulga também,
agora vende motores de rega,
pequenos tractores,
motocultivadores.
Agora já todos têm retrete, fogão a gás,
rádios de pilhas e televisão.
Já todos temos democracia, já todos somos da CEE.
furos, correntes ou guiadores.
Agora já não há ninguém que me dê arcos
esses aros de bicicleta
com que viajámos em fantasia.
O filho do Chico, Pulga também,
agora vende motores de rega,
pequenos tractores,
motocultivadores.
Agora já todos têm retrete, fogão a gás,
rádios de pilhas e televisão.
Já todos temos democracia, já todos somos da CEE.
A ti Paivita que gostava de cachaça e de bailar
Sobretudo, a ti Paivita.
Gostava de cachaça e de bailar
e no fim das vindimas ou da azeitona
era vê-la cantar a cana verde:
Oh cavalheiro! Oh! Oh!
Morreu-lhe o homem quando ainda era nova
e, com dois filhos nos braços,
a jovem viúva guardava a honradez
trabalhando em todas as terras do lugar.
Só o bagaço a distraía,
a quente cachaça que lhe dava companhia.
Mas os fantasmas da trovoada eram os deuses ralhando,
todos os santos do céu à bofetada.
Oh cavalheiro! Oh! Oh!
Paivita lhe chamavam, tem oitenta ou noventa,
já ninguém sabe,
nem ela própria se sabe,
mas todos os dias passa no Largo da Praça,
a caminho da fonte.
Com um cantarinho de lata,
vai velhinha e não segura.
Gostava de cachaça e de bailar
e no fim das vindimas ou da azeitona
era vê-la cantar a cana verde:
Oh cavalheiro! Oh! Oh!
Morreu-lhe o homem quando ainda era nova
e, com dois filhos nos braços,
a jovem viúva guardava a honradez
trabalhando em todas as terras do lugar.
Só o bagaço a distraía,
a quente cachaça que lhe dava companhia.
Mas os fantasmas da trovoada eram os deuses ralhando,
todos os santos do céu à bofetada.
Oh cavalheiro! Oh! Oh!
Paivita lhe chamavam, tem oitenta ou noventa,
já ninguém sabe,
nem ela própria se sabe,
mas todos os dias passa no Largo da Praça,
a caminho da fonte.
Com um cantarinho de lata,
vai velhinha e não segura.
O Fernando Padeiro
O Fernando Padeiro, pela noite vai amassando
a farinha, a água quente, o fermento,
o fogo, o forno, o tijolo, a lenha, o pão,
o tabuleiro, a porta de ferro
e o pão quentinho e loiro
que a pá vai trazendo
e sempre o fato branco
e a poeira da farinha.
O pão principal é o papo seco,
O pão de cruzado, também dito pão de bico,
que custava quatro tostões,
por causa do regime do pão político.
Mas há também pão de meio quilo,
feito só de centeio,
broa de vez em quando
e sobretudo as escarapiadas de encomenda,
esse bolos de canela e açúcar amarelo
que ainda hoje me fazem vir água na boca.
a farinha, a água quente, o fermento,
o fogo, o forno, o tijolo, a lenha, o pão,
o tabuleiro, a porta de ferro
e o pão quentinho e loiro
que a pá vai trazendo
e sempre o fato branco
e a poeira da farinha.
O pão principal é o papo seco,
O pão de cruzado, também dito pão de bico,
que custava quatro tostões,
por causa do regime do pão político.
Mas há também pão de meio quilo,
feito só de centeio,
broa de vez em quando
e sobretudo as escarapiadas de encomenda,
esse bolos de canela e açúcar amarelo
que ainda hoje me fazem vir água na boca.
O Doutor Videira
O dr. Videira era bacharel em leis, não praticante,
e até jogava bem ao fito.
Passava os dias postado nas grades da porta
a saudar quem passava
e só lhe chamavam doutor por causa disso.
Era dono de vinhas e pinhais
e foi o primeiro a comprar tractor.
Tinha direito a cadeira na capelinha do Senhor Morto,
mas nunca foi deputado nem presidente da Junta.
O Videira não morreu de velho,
morreu de tédio,
por tanto jogar às damas com o Dias do lagar
no café do Zé Maria.
Ninguém chorou por ele quando morreu.
Teve, contudo, funeral de arromba,
com um acompanhamento ia do Largo da Praça
até à Fonte do Cabo,
sinal de que afinal era boa pessoa.
Os irmãos do Santíssimo iam todos de opa vermelha
e depois do enterro também todos beberam in memoriam
nas tabernas do Larau e do Cardoso:
Um tinto pela alma do senhor doutor, do senhor doutor Videira.
e até jogava bem ao fito.
Passava os dias postado nas grades da porta
a saudar quem passava
e só lhe chamavam doutor por causa disso.
Era dono de vinhas e pinhais
e foi o primeiro a comprar tractor.
Tinha direito a cadeira na capelinha do Senhor Morto,
mas nunca foi deputado nem presidente da Junta.
O Videira não morreu de velho,
morreu de tédio,
por tanto jogar às damas com o Dias do lagar
no café do Zé Maria.
Ninguém chorou por ele quando morreu.
Teve, contudo, funeral de arromba,
com um acompanhamento ia do Largo da Praça
até à Fonte do Cabo,
sinal de que afinal era boa pessoa.
Os irmãos do Santíssimo iam todos de opa vermelha
e depois do enterro também todos beberam in memoriam
nas tabernas do Larau e do Cardoso:
Um tinto pela alma do senhor doutor, do senhor doutor Videira.
Outro que morreu foi o Zé Moita
Outro que morreu foi o Zé Moita,
dos caixões, das confecções,
das grandes negociatas dos tempos da guerra,
que tinha uma carrinha preta
e a única casa de habitação da terra
que tinha papel na parede.
Morreram todos os homens do largo
que me deram educação
E os que ainda estão vivos
já não são quem eram.
Agora, a Ti Pardala
passa os dias sentada ao sol
e para andar tem de usar bengala.
dos caixões, das confecções,
das grandes negociatas dos tempos da guerra,
que tinha uma carrinha preta
e a única casa de habitação da terra
que tinha papel na parede.
Morreram todos os homens do largo
que me deram educação
E os que ainda estão vivos
já não são quem eram.
Agora, a Ti Pardala
passa os dias sentada ao sol
e para andar tem de usar bengala.
Eu continuo a ser o sonho de minha avó Belita
Eu continuo a ser o sonho de minha avó Belita,
a loucura merancórica de meu avô Hirácio,
os poemas de minha avó Maria da Assunção,
ou os delírios de meu avô Lino.
E sempre, sempre, dentro de mim,
o desejo de partir, de aventura,
de poder quebrar as amarras que me ligam
à terra-mãe.
a loucura merancórica de meu avô Hirácio,
os poemas de minha avó Maria da Assunção,
ou os delírios de meu avô Lino.
E sempre, sempre, dentro de mim,
o desejo de partir, de aventura,
de poder quebrar as amarras que me ligam
à terra-mãe.
Agora, poucos sabem dos trilhos
Agora, poucos sabem dos trilhos
que, todos os dias, nos levavam
às terras das Rodas ou do Cimo do Olival,
nesses carreiros feitos com pés descalços,
onde conhecíamos as árvores, quase pelo nome,
e sabíamos das curvas
da ribeira e dos silvados.
Quando minha avó me levava às cavalitas,
tirando as sandálias de levar à cidade.
que, todos os dias, nos levavam
às terras das Rodas ou do Cimo do Olival,
nesses carreiros feitos com pés descalços,
onde conhecíamos as árvores, quase pelo nome,
e sabíamos das curvas
da ribeira e dos silvados.
Quando minha avó me levava às cavalitas,
tirando as sandálias de levar à cidade.
Tanta gente morreu na minha terra
Tocam os sinos na igreja...
É morte? É fogo? É missa?
Ou são apenas as horas que soam
no relógio da torre.
Tocam os sinos na igreja...
finos sons dos sinos grossos
sons de bronze
e o Mário puxando a corda
e as pessoas todas
em quase toda a freguesia
tirando a boina da cabeça
e rezando uma Avé Maria.
É morte? É fogo? É missa?
Ou são apenas as horas que soam
no relógio da torre.
Tocam os sinos na igreja...
finos sons dos sinos grossos
sons de bronze
e o Mário puxando a corda
e as pessoas todas
em quase toda a freguesia
tirando a boina da cabeça
e rezando uma Avé Maria.
Sou onda, maré
Sou onda, maré,
rouco som das areias,
silêncio que semeia quem mais sou,
apetecendo sentir o sol, o sal, o sonho,
mesmo quando não apetece olhar em mim
quem na verdade sou,
porque uma parcela de mim me prende
em medos
e remorsos pelo que não fiz.
rouco som das areias,
silêncio que semeia quem mais sou,
apetecendo sentir o sol, o sal, o sonho,
mesmo quando não apetece olhar em mim
quem na verdade sou,
porque uma parcela de mim me prende
em medos
e remorsos pelo que não fiz.
Importa viajar sem a ligeireza do turista
Importa viajar sem a ligeireza do turista.
Daquele que tudo pensa captar
porque apenas quer viajar para fazer suas as prévias sensações
já registadas por escrevinhadores de viagens.
E apetece ser parcela de outra viagem
que seja parte de uma viagem,
onde apeteça cumprir livremente o meu destino.
Para que o tempo possa circular em mim
e fazer-me nómada,
continuando na descoberta
do sentido íntimo dos lugares.
O que talvez seja não ter mesmo nenhum lugar.
Porque quando a viagem nos faz peregrinos,
vagabundos
que são romeiros de um sentido para o mundo,
cada um dos nossos passos é como se fosse uma conversão.
E todos os que têm a força para cumprir sua missão
não podem mesmo ter um qualquer lugar que os limite.
São de todo o mundo.
E apenas o tempo os vai cansando,
olhando o fim como o momento em que o corpo
já não pode ter mudança, sem merecer estar vivo.
E assim me sonho, quando vou escrevendo,
de um jacto, sem saber o que comanda a minha mão,
neste pontuar linhas sobre o papel,
procurando desafiar o sem espaço do mistério.
O tempo da descoberta nunca nos custa.
Mesmo num sítio desconhecido, fazemos sempre bolhas nos pés, no primeiro dia da estadia, nessa corrida para vencer o desconhecido, percorrendo, em círculos concêntricos, o espaço que tem por núcleo o ponto de encontro onde brevemente estacionamos e pensamos nosso.
Os minutos demoram e doem
quando se espera uma partida,
marcada pelo prazer da viagem.
Para que a espera passe depressa
e se volva em esperança,
mergulhando na noite à procura de Sul.
Quando apetece a viagem de, contigo, viajar,
de, contigo, despojar meu ser
dos restos de quem não sou,
de, contigo, viver e reviver.
E noite dentro, a viagem se desdobra
por mim dentro.
Leio.
Tento esquecer.
E ingresso, de vez em quando,
no tempo que vou esquecendo.
Regresso.
E, nesse poiso de sustento, imerso,
na imanência que é transcendência,
no devagar regresso a quem na verdade sou,
é no profundo silêncio que me durmo.
E sonho.
Daquele que tudo pensa captar
porque apenas quer viajar para fazer suas as prévias sensações
já registadas por escrevinhadores de viagens.
E apetece ser parcela de outra viagem
que seja parte de uma viagem,
onde apeteça cumprir livremente o meu destino.
Para que o tempo possa circular em mim
e fazer-me nómada,
continuando na descoberta
do sentido íntimo dos lugares.
O que talvez seja não ter mesmo nenhum lugar.
Porque quando a viagem nos faz peregrinos,
vagabundos
que são romeiros de um sentido para o mundo,
cada um dos nossos passos é como se fosse uma conversão.
E todos os que têm a força para cumprir sua missão
não podem mesmo ter um qualquer lugar que os limite.
São de todo o mundo.
E apenas o tempo os vai cansando,
olhando o fim como o momento em que o corpo
já não pode ter mudança, sem merecer estar vivo.
E assim me sonho, quando vou escrevendo,
de um jacto, sem saber o que comanda a minha mão,
neste pontuar linhas sobre o papel,
procurando desafiar o sem espaço do mistério.
O tempo da descoberta nunca nos custa.
Mesmo num sítio desconhecido, fazemos sempre bolhas nos pés, no primeiro dia da estadia, nessa corrida para vencer o desconhecido, percorrendo, em círculos concêntricos, o espaço que tem por núcleo o ponto de encontro onde brevemente estacionamos e pensamos nosso.
Os minutos demoram e doem
quando se espera uma partida,
marcada pelo prazer da viagem.
Para que a espera passe depressa
e se volva em esperança,
mergulhando na noite à procura de Sul.
Quando apetece a viagem de, contigo, viajar,
de, contigo, despojar meu ser
dos restos de quem não sou,
de, contigo, viver e reviver.
E noite dentro, a viagem se desdobra
por mim dentro.
Leio.
Tento esquecer.
E ingresso, de vez em quando,
no tempo que vou esquecendo.
Regresso.
E, nesse poiso de sustento, imerso,
na imanência que é transcendência,
no devagar regresso a quem na verdade sou,
é no profundo silêncio que me durmo.
E sonho.
Nesta rapidez da viagem
Nesta rapidez da viagem,
a saudade de outras viagens com demora.
Que cansam jornadas longas demais
para tão curto tempo.
E apetecem viagens que sejam devagar
assim, passo a passo, neste deslizar
dos dias que vão absorvendo a mudança
do corpo,
a adaptação da alma.
Que correr é desprezar o espaço
e não permitir a procura do que nos falta
e para onde vamos.
Correr assim é não saber mudar.
É sermos sempre os mesmos em qualquer lugar.
a saudade de outras viagens com demora.
Que cansam jornadas longas demais
para tão curto tempo.
E apetecem viagens que sejam devagar
assim, passo a passo, neste deslizar
dos dias que vão absorvendo a mudança
do corpo,
a adaptação da alma.
Que correr é desprezar o espaço
e não permitir a procura do que nos falta
e para onde vamos.
Correr assim é não saber mudar.
É sermos sempre os mesmos em qualquer lugar.
Às vezes, não apetece até ler coisas difíceis
Às vezes, não apetece até ler coisas difíceis,
da dogmática de manual.
Apetece procurar o absoluto
no doce devagar do sentimento,
sem a dor de me fechar germanicamente
nas brumas e névoas da abstracção
e da engenharia do rigor epistemológico.
Tudo o que seja perturbar a falsa ordem instalada me fascina,
dado que estou farto das habilidades políticas
a que dão o nome de reformas.
E porque o desejo de certo centro, mole e difuso,
ao matar qualquer espécie de palavra mobilizadora,
é completamente totalitário,
dado que silencia o pensamento.
Sobretudo quando invocado pelo aparelhismo
desse lui que continua a dizer
que l'État c'est moi
e que nós somos o resto provinciano a educar...
da dogmática de manual.
Apetece procurar o absoluto
no doce devagar do sentimento,
sem a dor de me fechar germanicamente
nas brumas e névoas da abstracção
e da engenharia do rigor epistemológico.
Tudo o que seja perturbar a falsa ordem instalada me fascina,
dado que estou farto das habilidades políticas
a que dão o nome de reformas.
E porque o desejo de certo centro, mole e difuso,
ao matar qualquer espécie de palavra mobilizadora,
é completamente totalitário,
dado que silencia o pensamento.
Sobretudo quando invocado pelo aparelhismo
desse lui que continua a dizer
que l'État c'est moi
e que nós somos o resto provinciano a educar...
Humano, demasiado humano
Humano, demasiado humano,
assento meus pés nus no lodo
e nas vísceras
do quotidiano pecado,
pleno de tentações e pulsões
que me varam e me penetram.
Mas também não deixo de procurar
olhar as estrelas, as noites de luar
ou de, em pleno dia,
ousar sentir de frente a violência solar.
Humano, demasiado humano,
me sinto apenas mais um pedaço
da minha própria história,
tanto da pessoal como da colectiva,
ambas imaginadas pela experiência.
É por isso que, às vezes, no silêncio da madrugada,
me chegam súbitos sinais de vida
e gritos por dar,
talvez por causa do meu quotidiano treino
no exercício da palavra como missão,
nisso a que chamam poesia,
que é pensar a palavra viva,
para viver meu pensamento
e sentir o que vou pensando.
assento meus pés nus no lodo
e nas vísceras
do quotidiano pecado,
pleno de tentações e pulsões
que me varam e me penetram.
Mas também não deixo de procurar
olhar as estrelas, as noites de luar
ou de, em pleno dia,
ousar sentir de frente a violência solar.
Humano, demasiado humano,
me sinto apenas mais um pedaço
da minha própria história,
tanto da pessoal como da colectiva,
ambas imaginadas pela experiência.
É por isso que, às vezes, no silêncio da madrugada,
me chegam súbitos sinais de vida
e gritos por dar,
talvez por causa do meu quotidiano treino
no exercício da palavra como missão,
nisso a que chamam poesia,
que é pensar a palavra viva,
para viver meu pensamento
e sentir o que vou pensando.
Uma nostálgica identidade rural
Sou um puro e duro neto de campónios
que, na cidade educado e vivido,
prefere acreditar que ainda pode ser rural,
dado que lhe foi dado aprender
o sentido das árvores,
o correr das ribeiras,
a breve leveza dos pássaros
e a fragilidade das flores silvestres.
Tenho também a desarmonia
breve das colinas,
o agreste das brisas
e a variedade de um valado verdejante,
onde a suavidade aparente
daquilo a que, à distância, chamam paisagem,
esconde pedregulhos,
e silvados
e a intensa vida microscópica
de biológicos e minúsculos seres.
Sobretudo das formigas e das lontras
que, dia a dia, escavam e levam
pedaços de húmus
e restos de bichos e plantas.
Por trás desta máscara, feita olhos de menino,
mãos de escrever
e adornados cabelos e barbas,
esconde-se um ser feito revolta,
ainda em pleno
na sua fúria de viver,
que tem as mãos calejadas pelas cordas
que sustiveram seu navio,
com unhas enegrecidas
pela terra que semeou,
para moldar em barro
a sua própria estátua de sonho.
Não tenho a vaga fé dos nostálgicos
que procuram o regresso da magia,
nem a messiânica, ou angélica, crendice
e ânsia por cumprir
dos que esperam um qualquer encontro,
de um qualquer grau, iniciático ou profano,
com a aparição do transcendente.
que, na cidade educado e vivido,
prefere acreditar que ainda pode ser rural,
dado que lhe foi dado aprender
o sentido das árvores,
o correr das ribeiras,
a breve leveza dos pássaros
e a fragilidade das flores silvestres.
Tenho também a desarmonia
breve das colinas,
o agreste das brisas
e a variedade de um valado verdejante,
onde a suavidade aparente
daquilo a que, à distância, chamam paisagem,
esconde pedregulhos,
e silvados
e a intensa vida microscópica
de biológicos e minúsculos seres.
Sobretudo das formigas e das lontras
que, dia a dia, escavam e levam
pedaços de húmus
e restos de bichos e plantas.
Por trás desta máscara, feita olhos de menino,
mãos de escrever
e adornados cabelos e barbas,
esconde-se um ser feito revolta,
ainda em pleno
na sua fúria de viver,
que tem as mãos calejadas pelas cordas
que sustiveram seu navio,
com unhas enegrecidas
pela terra que semeou,
para moldar em barro
a sua própria estátua de sonho.
Não tenho a vaga fé dos nostálgicos
que procuram o regresso da magia,
nem a messiânica, ou angélica, crendice
e ânsia por cumprir
dos que esperam um qualquer encontro,
de um qualquer grau, iniciático ou profano,
com a aparição do transcendente.
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