dezembro 18, 2008

Porque a razão nos dita desassossego

E ficarão, para sempre, as pequenas vagas
batendo mornas
nos longos cais de pedra
das chegadas, sem partidas.
Ficará eterno o prometido barco
que nos há-de levar
para o outro lado do mar.

Ficará, para sempre,
o infinito a que nos demos.

Que, nossas, as mãos nos dessem

Apetecia dizer que amanhã poderíamos dar
tempo
ao tempo do não-tempo,
nem que fosse um breve momento
que nos desse o prometido
sempre.
Que as minhas mãos
em tuas mãos
vivessem
a tal viagem por cumprir.
E nossas mãos,
navios ousados
novo mar
nos descobrissem.
Que, nossas,
as mãos nos dessem
mansos sulcos
bem mais fundos.
Para conjugarmos em fim
o verbo mar
e dizermos sem medo
o que tememos.
Que, de mar a mar, fosse possível
não mais parar de amarar.

Sempre esta procura de não achar o sonho de quem sou

Sempre esta procura de não achar o sonho de quem sou.
A tal semente que a brisa do rio me deixa
em seu vagar de esperança.
Que há dias de rio e mar
assim à minha beira.
Dias de chegar e regressar.
De tempos que me dão tempo,
estes marítimos compassos de meu caminho de cais.
Que serei sempre quem procuro e afinal não acho.
Esta solidão solidária que o infinito me deu,
esse intenso sinal do tempo
que, por mim dentro, me permite o mais além.

Agora, o prazer da sombra de um jardim
em plena cidade,
a música dos pássaros vencendo o ruído
dos carros que passam,
as conversas que se ouvem, difusas, na mesa ao lado,
os incómodos sons dos telemóveis
que interrompem a serenidade do jardim,
e a minha solidão que pensa.
Sobretudo, o prazer de recordar momentos
em que fui feliz.

E o pássaro que volta
e cujo chilreio recorto,
deste mosaico do momento.
O verde sujo visto da sombra,
o breve vento que nos refresca em dia de Verão.
Onde não interessam as conclusões que declaramos,
mas as angústias da procura que poderemos sugerir.

Comi breve, nesse requinte
de saborear sem olhar as horas,
sem ter de correr para cumprir,
pedindo um café no devagar e escrevinhando à toa
sem sequer ter que escrever.
Fecho-me à conversa impertinente
destes vizinhos de mesa, atrás de mim,
prefiro seguir a viagem
que uma ousada pomba vai fazendo
por entre as mesas da esplanada.

Em noites de silêncio e dor

São longos estes dias de espera,
esta frustração de não poder,
contigo,
peregrinar
os montes e vales que me vão cercando,
sobretudo em noites de silêncio e dor.
Que doem as coisas que não temos
e esse espaço que medimos como frustração e desafio,
enquanto silêncio a preencher.

Eis que chega o tempo de acordar,
de estar assim desperto
perante o desabrochar do dia,
com o sol rompendo por entre os montes
e o vento despertando a ramagem dos pinheiros.
Eis o longo dia que volto a querer peregrinar,
assim diante do cosmos
e podendo acariciar,
mexer, revolver, rearrumar.

Eis o corpo exposto nas tábuas do meu peito,
onde posso suspender teu corpo,
o porto de partida para a longa viagem
de uma nova criação do mundo.
Eis o tempo do voo
do pássaro azul que vou procurando,
contra os temores que me dão revolta,
contra os frios de uma noite de remorso.

Eis a luz que me traz esta janela rasgada,
diante do mar,
este canto ocidental da minha casa,
onde me guardo para viver
o prazer da escrita,
mas onde também a ventania descobre
todas as frinchas das portadas.
Eis o largo espaço
de um tempo por cumprir,
quando apetecem cordas
que sustentam o meu corpo.

Foi aquém e foi além

Há um espaço em mim que tenho de reencontrar
e captar
para nele semear
os dias que hão-de ser.
Há um espaço de beleza por semear.
Que apetece poder seguir contigo
numa qualquer viagem
de chegar
à identidade que nos deu ser.

Nesta luz a mais que me define

Dia de sol a rodos, nesta costa ocidental,
onde apetece saudar
a braveza do mar,
sentindo a luz solar, em sua carícia de força.
Neste dia de cristalina primavera,
nesta luz a mais que me define,
nesta viagem de sempre,
em que refaço as longas raízes da esperança,
a que, infelizmente, continua a faltar terra e muro.


E foram quase dois dias,
assim alheado de certo mundo.
Porque preferi sentir as toadas de uma infância de mar e sol,
recordar os toldos postos em fila,
o cheiro a peixe sêco,
as ruas de vento
e a areia presa no corpo.
Senti o batel que os mansos bois tiravam do mar,
praia acima e até voltei a acariciar
as velhas pedras do forte.

Detesto a fadiga dos horários

Detesto a fadiga dos horários.
Como se o tempo apenas tivesse datas,
marcas
divisórias entre um antes e um depois,
como se todas as horas,
todos os dias,
todos os momentos
não fossem parcelas fungíveis
da grande corrente de vida
sem fim,
neste vaivém dos dias
sem a rotina dos horários,
sem a fadiga de quem não aceita
a dor de não achar-se.
Como se, aqui e agora, eu não fosse mais do que sou.

Dia de regresso para seguir em frente

Há coisas que apetece dizer,
mas que talvez já não saiba dizê-las
como sabia.
Coisas que talvez tenha medo de dizer,
ou que ainda não posso dizer
e que, por isso, se ficam em fluidez,
perdidas no suave travo amargo
desta breve tristeza que apetece,
quando o sol já me desperta.
Apenas quero um pedaço de tempo
em que me guarde e resguarde
do tempo que, em vão, não tenho

Sofro esta pulsão de escrever-me,
desvendando os recantos de quem sou
e que, às vezes, nem eu próprio sei.
E assim encruzilhado, por mim dentro,
vou sentido mãos calcorreando
as teclas de um piano
e que me levam além de mim.

Nosso humor merancórico...

Tudo estava enevoado pelo molha-tolos
que me dava a bruma do ensimesmamento.
E nem sequer senti o deslumbramento da foz,
perdendo-se na fundura do mar bravo.
E assim larguei os pinheirais de bruma,
só começando a sentir azul
bem perto de minha pequena pátria,
onde voltei a sorver
a força do rio que me deu pátria,
as salinas,
a mansa foz,
as cores vivas do sol na serra
que tem nome de boa viagem.

Um tempo-mar que há-de ser

Apetece sorver o tempo-mar
que há-de ser
e assim volver ao sonho,
à vertigem de um acaso procurado.
Porque, no mais fundo de quem sou,
há sempre um pedaço de mar.

Há um tempo de espera de quem sou.
Agora e aqui, diante de mim.

E vou, pelo mar sem fim,
que meus olhos perseguem.
E reparo, nas muitas palavras dispersas
que me repõem.

Sou tanta gente antes de mim
que, quando por mim dentro me procuro,
é em todos os outros
que me confundo.
E assim, com os outros,
em comunhão, refeito
sou bem mais do que me penso.

Foi aquém e foi além


Aqui, onde quem estou, serei.
Onde meu corpo é sinal de procura,
sinal de um mar para onde vou.
Onde o verso me dará quem sou.
Onde versos e versos me levam ao segredo.

Sim, deixa dizer em segredo deste pedaço de procura,
deste resto de música que, de mais além me dá sinal.
Deixa dizer meu sonho
e seguir o sonho de um mar por cumprir.

Porque, para os outros que me lêem,
não posso dizer tudo quem sou.
Os breves recantos onde me guardo.
Os sinais que me dão segredo.


Há um espaço em mim
que tenho de reencontrar
e captar
para nele semear
os dias que hão-de ser.
Há um espaço de beleza por semear.
Que hoje apetecia poder seguir contigo
numa qualquer viagem de chegar
à identidade que nos deu ser.

Ter um qualquer lugar que me dê lugar

Sinto que necessito, aqui e agora,
de umas quaisquer mãos livres
que me dêem espaço
para um qualquer lugar no mapa dos sonhos.
Um qualquer signo
que me possa transportar
para novos dias,
diante de quem sou.
Dias de quem, na verdade, sou.

Ter um qualquer lugar que me dê lugar,
que não esta espera sem mãos de espera,
este desejo de ficar e de sofrer.

Olho através da janela o pequeno pinheiro,
o melro de bico amarelo, avermelhado,
as flores vermelhas da jardineira,
a água da ribeira e o céu inteiro sem uma nuvem sequer. E sabe tão bem sentir, no azul da rua, a mesma cor que tenho dentro de mim. Sabe tão bem sentir a vinda de mais um dia e apetecer vivê-lo, na paz inteira, sem que as nuvens do remorso e do pecado me toldem a memória.
Perdi o meu amor, por desejar ir além
das mãos que me prendiam,
quando, na curva de um caminho
que, afinal, já não havia,
me volvi.
Renunciámos ao azul do mar,
das águas correntes,
das sombras frescas.
Sinto que a Primavera não vai voltar,
nem depois de sofrermos a invernia.
Não posso continuar a sofrer a dor de não saber,
de todos os dias ter que conhecer
memórias de tempos que não quero conhecer.

Preso no lodo,
envolto em dor,
foi por ti que chorei em descaminho.
Folha de vento, solta da árvore,
meu corpo se perdeu dentro de mim.
Perdi o norte e o sinal
de procurar o signo de amarar.
Não posso partilhar meu rumo
na terra pisada,
onde crescem flores que não semeei.
Há sucessivas frustrações
que nenhum correr do tempo
pode, afinal, apaziguar.

De meu além não vim
e assim perdido,
perdi a voz.
Sinto-me intruso,
foragido,
proibido.
Afinal, era verdade o lado lunar
que te ocultava,
o soporífero paraíso
de um exótico comprado
em qualquer agência de viagens,
essas teias de luxúria a que chamam prazer,
as orgias dos acasos enevoados
que esmagaram gestos de pureza,
nessa rodilha decadentista de carnes flácidas
com que a loucura vai cercando o desencanto.
Quem, estando à porta do ser,
nele não quer entrar
pode não ter razões
que o façam mover.

Há páginas de dor que vamos escrevendo
para ninguém as possa um dia ler,
nem eu próprio,
páginas e páginas impublicáveis,
com que vou tentando apagar
as mágoas das noites sofridas em solidão,
sem conseguir desligar da angústia
que me agita e
não consigo verbalizar.
São páginas e páginas em que me sofro
e refreio
e que não compenso
nos fumaradas opiáceas
com que outros enevoam o mundo.

Sinto quem sofro,
mas não consigo livrar-me dos fantasmas
que dentro de mim volteiam.
Não consigo superar estes receios
que me agridem em surdina.
Me receio,
me refaço,
me retomo.
Mas não consigo vencer a futilidade
e esquecer
a força do vento
e o perfume da caruma nos pinhais.
Prefiro manter o sonho
de procurar a perfeição.

Não tenho terra, não tenho casa

Não tenho terra, não tenho casa
e apenas resta o mar que me perdeu.
Vagabundo por tua causa
em tal procura me não acho,
correndo todas as ruas do mundo.
Não tenho terra, não tenho casa
e, sem lugar, é, do próprio tempo,
que me desprendo.
Ficou por achar quem sou
e, em nome do sonho que me norteia,
foi de mim que fugi por tua causa.

Que apetecia viver e reviver,
procurar, longe daqui, em qualquer lugar,
um lugar onde que me faça regressar.
Um verso onde poisar meu verso,
a pátria prometida
que resguardo em sonho,
nas mãos fechadas da revolta,
neste sonho de procurar quem sou
pelas ruas abertas à brisa suave,
e estes fins de tarde com poentes de fogo
que vão incendiando o céu azul
que me deu quem sou.

Que aqui e agora, me vou sofrendo,
no verso que procuro neste correr livre da pena,
em minha própria procura.

Da procura de um amor feliz

Sempre a espera que antecede
o momento da procura,
um rio, o vento,
o barco que passa,
o sítio mais estreito
que nos dá passagem.
Uma barca que nos leve além,
para ficarmos bem mais perto
desse pedaço de sonho
que se guarda em mim.
No apetecer de um tempo descoberto,
na sagrada procura de um sinal
que me dê sonho,
na espera sentida de um tempo que me dê alento.
Sou quem sonho, as mãos sustenho
sem palavras que descrevam o momento.
O breve sinal que me deu alma.
E as mãos contenho, devagar.
Que aqui quem sonho me deteve
à beira de um tempo que não foi.
Ouve, deixa que te diga
o que, no fundo me apetecia,

nesta ternura de ainda termos cumplicidade.
Deixa que te diga que ainda vale a pena
o segredo que nos arrasta livremente
pelos breves meandros da felicidade.
E apetecia escrever-te sem peias,
deixar aqui o nome que soletro, mas não registo,
com medo que vasculhem estes papéis.
Quanto apetecia dizer-te profundamente,
que é por tua causa que aqui me vou escrevendo,
para que um dia, quando voltarmos a quem na verdade somos,
nus e secretos,
num qualquer lugar que nos dê futuro,
teus olhos possam estas linhas percorrer.
Quanto apetecia que estas palavras pudessem
despertar quem sou,
que, mesmo depois de morto,
nestas palavras eu possa, através de alguém
que isto mesmo sinta, me eternizar.
Que, com alguém, sentindo o meu sentir de agora,
possa voltar, um dia,
a eternidade que, humanamente senti,
na brevidade desta vida.
Que tua cumplicidade sentida
possa despertar-me das brumas da memória,
em nome do amor.
Aqui me espero à tua espera.
Nesta casa onde apetecia que viesses
para desbravarmos a noite.
Para, diante da lua,
poder seguir
a cartografia do teu corpo,
decifrando todos os sinais que me dão rota.
É a noite que vai seguindo seus passos,
nesses longos caminhos que apetece peregrinar,
nestas viagens de me olhar por dentro,
de me olhar para dentro.
É o tempo.
O muito tempo que me apetece,
para que o tempo não finde
e seus sinais me não dêem a longa esperança da viagem.
E apetecia seguir contigo,
ser contigo,
para sempre viver contigo.
Como dói saber que o tempo me consome
e nos consome

Chegou, de repente, um pedaço de céu azul

Chegou, de repente, um pedaço de céu azul.
E o meu irmão pardal escapou-se
largando o espaço
onde minhas mãos o poderiam acariciar.
Apeteceu-lhe também não ter gaiola,
horários, calendários e agendas
nesse ter que fazer, para se fingir viver,
entre cartas de bancos, declarações de impostos
e outras algemas de uma cidadania
de trabalhador por conta de outrem,
beneficiário e contribuinte
por causa da assistência na doença
e subsídio para o funeral
deste belo Estado de Bem Estar.

E lá vem o sol, antes de ser poente.
E toda a barra fica plena deste azul de Lisboa,
desta luz a mais que nos dá desejo
de viver intensamente,
apetecendo sentir a música que me chega
destes sinais de primavera.
É a luz que me alumia e me dá sonho.
E força para vencer as nuvens e penumbras
que me toldam o silêncio.

E fui ao fundo das águas.
E, livremente preso,
me veio o doce prazer do movimento,
de poder cumprir o desafio de atravessar o rio
que nos separa.
Navegar para a outra banda,
derrubando a margem,
nesta procura por onde me vou buscando,
neste prazer de viajar em mim,
dentro de mim,
dando o meu corpo ao movimento,
em busca de um sonho que não acho.
E assim disperso pelos pedaços de vida
que, apesar de vivida, continuo a procurar,
fui peregrinando rumo à linha que limita
a minha vida,
esse risco de bruma que vai além
do que sinto e penso.

Que apetecia viver e reviver,
procurar longe daqui,
um qualquer lugar que apenas fosse meu,
um lugar onde pudesse regressar
a quem na verdade sou.
O lugar onde poisar meu verso,
a palavra prometida
que resguardo em sonho,
mesmo quando penso deter
as mãos fechadas que me dão revolta.
E sempre este sonho de procurar quem somos,
nas ruas abertas à brisa suave.

Navegar para a outra banda, derrubando a margem

Apetecia poder sair daqui, permanecendo aqui.
Olhar daqui, por dentro de mim,
sulcando quem poderei ser,
neste vaivém do sonho
que tenho
e não tenho.
Apetecia continuar a sentir o silêncio da beira rio,
viver o ritmo das águas vão batendo
nas pedras do cais,
ficar assim, nesta margem de mim mesmo,
onde posso passar sempre à outra banda.

Apetecia partir dentro de mim
para o meu próprio lugar achar,
agora que me vai doendo a nostalgia do exilado,
o estar aqui sem ser daqui,
e sem sequer me apetecer fingir que sou daqui.
Que meu lugar é ter lugar longe daqui,
em sítio de sereno viajar,
peregrinando pinheirais de bruma
e praias de areias longas.

Neste vaivém, onde estou quem não sou,
É em saudades que me volvo
e me converto.
Sei que sou quem não estou
e que apetecia largar de mim
a amargura de procurar viver
meu signo.
Porque tenho a noção exacta dos meus próprios limites,
da minha falta de força para suster forças
bem mais fortes do que os meus braços
e que, por isso, se quebra o encanto
daquela luz que brilhou em mim,
neste dias de sonho sofrido.

Se eu pudesse voar sobre quem somos

Se eu pudesse voar sobre quem somos,
vencendo o medo que tivemos dentro de nós.
Se pudesse chegar o tempo de dizermos mais,
o que um ao outro jamais dissemos.
Nas mãos a que nos demos e onde tecemos,
dedos cruzados, o calor que há-de vencer
o frio da espera.
A noite não terá fim nesse cais suspenso sobre o lodo
e em teu corpo deporei a flor do tempo que virá.


Que só contigo eu sei dizer amor,
olhos nos olhos, viver amor,
corpos nos corpos,
sem ter que me esconder
de quem na verdade sou.
Sim, eu sei o que só nós dois sabemos
e que um dia será para sempre,
porque o tempo nos deu espera,
porque a espera nos deu signo,
para que o novo tempo nos traga
a força de quem somos.

O mistério de, contigo, ser mais eu


Apetecia ser contigo,
ser assim bem mais do que eu,
ser contigo,
ser o nós,
e ser por nós, à tua beira.
Ser contigo para ser mais eu,
e sermos, sem sinais de angústia,
nem restos empedernidos da invernia.
Apetecia, contigo,
olhar de frente
quem, na verdade, somos,
sem a carga dos versos por cumprir.

Que o vento me traga
quem na verdade sou.
Os sinais do sítio para onde vou.
As vagas de um mar por descobrir.
Sinais de silêncio,
restos de vento.
Que versos, dispersos, alumiem
quem na verdade sou.

Apetecia viajar à beira de quem fomos,
de quem somos,
perto do rio
que em seu vaivém
nos deu corrente.
Ter suave vertigem do amanhã,
brasa de um fogo por cumprir,
risco de um além
que talvez um dia possa ser,
nesse tempo por cumprir.




Apetecia ser contigo,
assim à tua beira,
sem sinais de angústia,
nem restos da empedernida invernia,
para sermos mais do que nós.
Apetecia, contigo, olhar de frente
quem, na verdade, somos.

Para que o vento nos traga
sinais do sítio para onde vamos.
Em versos, dispersos, por cumprir,
que nos dêem as vagas de um mar por descobrir.

Apetecia viajar à beira de quem fomos,
perto do rio que em seu vaivém nos deu corrente.
Para voltarmos a ser
a suave vertigem do amanhã,
a brasa de um fogo que nos dê
o dia que há-de ser.

Foram lábios feitos navios

Sei que não dissemos a palavra amor,
mas também sei
que foi amar o que nos aconteceu.
Como aquele abanar do vento,
feito estampido,
que venceu os tímpanos do tempo.
Sei que só nós sabemos como foi
e que o segredo de nada dizermos,
tanta coisa nos disse,
nesses silêncios da noite.
E sei também que apetecia poder voltar
a ser essa breve viagem de mãos dadas,
de corpos dados,
quando dois seres que nunca se repetem
viveram um acontecer
que nunca mais será como foi
dessa primeira vez.


Houve um menino homem, em sua procura de viver,
farto de sustentar os pesos da angústia
que, em teu corpo de mulher menina,
procurou que acontecessem frutos, flores,
sombras nocturnas de primavera,
uma cama feita caruma seca de pinhal
e o tecto pleno de estrelas
num quarto aberto ao sinal do horizonte.

Apetecia o verbo amar no plural

Apetecia, aqui e agora,
Escrever, escrever-te
longa carta de amar-te,
assim letra a letra, sobre o papel,
com a força antiga e perfumada
de uma esperança viva, rediviva.
Apetecia não temer
dar nome ao proibido,
dizendo que são breves
as nuvens que nos toldam o sonho.
Apetecia ter a força inteira
de, contigo, reviver o mar sem fim.

Numa rua qualquer desta cidade antiga

Numa rua qualquer desta cidade antiga,
com o sol doirando a sombra dos plátanos
e reflectindo-se suavemente
nas vidraças da casa em frente,
é nele que vou buscar a força que preciso
para reflectir por escrito
alguns pedaços de quem sou,
aqui sentado neste escrever-me,
rescrever-me e repensar-me,
sem a angústia típica da frustração.

Que ontem, salgadamente, voltei a ser gaivota
peregrina
que se assenhoreia de um qualquer ilhéu
abandonado,
onde, de velas pandas, me naveguei,
sustendo as cordas que me livraram de sofrer
um golpe da retranca.
Porque fui de mar em mar, dentro de mim,
conseguindo olhar de frente
as sombras da memória proibida,
lá passei para a outra margem, mas sem sair de mim.
Que apeteceu, à noite, sorver o frio da maresia,
quando a viagem me fez regresso ao lar.

E quem sou pôde sorver as vagas do que há-de ser.
E até conseguiu contar e recontar histórias da infância,
desde os professores primários todos
que me deram a cultura que ainda hoje tenho,
aos padres de Santa Justa, a minha igreja,
que não deixei de ter,
desde o padre Paulo que jogava bem à bola,
ao padre Hilário que era italiano e grande.

E me vieram sabores de pedra e talha dourada,
galhetas com vinho de missa
e o cheiro queimado do turíbulo
e o som da missa em latim
e o pequeno-almoço em casa dos padres,
com grandes canecas de café com leite
e torradas com pão de mistura,
que custava dezassete tostões.
Como se o tempo fosse afinal
uma permanência que, passando, nos relembra,
assim ficando vivo no fundo da memória.

Sabe tão bem contar-te e recordar-me,
das histórias de uma infância em que fui feliz
e me fez menino para toda a vida.
Mais os passeios que dava com meu pai,
para vermos futebol no campo da Arregaça
e nadarmos no Choupal.
Ou das conversas que tinha ao borralho da minha avó.
Ou dos brinquedos que eram rolos de madeira
dos velhos mata-borrões.
Ou as muitas tábuas e serradura
que sobravam da oficina do meu avô,
com o Ezequiel, sempre emborrachado,
mas bom filho de sua mãe,
ao Serafim, com tarocas de madeira e coiro,
bem circunspecto e cumpridor,
que tinha de educar a filha.
E na memória cabem as boas lembranças
das casas da minha aldeia,
quando não havia frigoríficos nem fogões a gás,
mas mosqueiros, salgas, grelhas e fogões a lenha,
que tinham daquelas batatas fritas em azeite,
cujo sabor nunca mais voltou.

Nas leiras abertas pelos sulcos da procura

Há pedaços de quem sou,
nas leiras abertas pelos sulcos da procura.
Cheguei e logo fiz a pedestre peregrinação pelas minhas recordações açorianas. A velha pensão onde tive a ilusão de um caminho que nunca cheguei a percorrer,
a euforia do porto,
a placidez do mar em volta
e a ilha que conheço,
profunda,
enquanto me foi chegando o micaelense
das conversas desta gente antiga.
E lá vou olhando ao longe
o que então procurei em sonho.
E lá vou sentindo
o vazio de já não poder chegar.

Não dizer nada,
deixar que o tempo sossegue
a inquietude,
que a bruma se desfaça à luz do sol,
que o sonho reverdeça os ramos decepados,
que um tronco em flor nos dê alento.
Pode haver tanta vida à nossa beira,
tantos dias de beleza,
de mãos dadas.
Pode haver um tempo de pureza, um rio de fogo galgando as águas e uma casa de silêncios para ocupar. Pode haver quem somos, pode haver mar, à beira da lava negra e da pedra que esmaga o grão. Mesmo aqui, onde as nuvens, a terra e o mar se confundem, no branco cinzento do mau tempo, entre gaivotas, barcos e telas, neste leve chumbo de fundo azul.

Sei que nunca irei por aí


Eu, pelo menos, sem saber tudo o que quero,
sei perfeitamente o que não quero
e sei que nunca irei por aí,
pisando terrenos armadilhados pelas minas da subserviência,
por todas essas procuras de uma qualquer prebenda
que nos seja dada pela cunha
ou pelas habituais manigâncias politiqueiras
ou eclesiásticas,
dessas alfurjas, lojecas e pequenas cortes
de um mundo que já não há.
Não queiras servir ilusórios bobos
de reizinhos já sem reino.
Que tenhas as mãos livres
e que escrevas o que pensas
na altura certa,
para poderes seguir livre
o teu próprio sonho.
Vale mais que olhes o sol de frente,
mesmo que morras em combate
ou que venhas a ser condenado por fuzilamento de ódios.

Deixa algumas sementes de beleza
e muito amor por cumprir.
Que, de ti, ninguém possa dizer, um dia,
que se vendeu pela posta ou pela comenda.
Sê livre!
Que sejas sempre um homem livre,
desses que cumprem o dever de serem sempre
bons filhos de seus pais honrados.
Não temas alinhar com a contra-corrente
e até com o contra-poder.
Tem a coragem de seres minoria,
não tenhas medo de apostar
naquela conduta que não está dependente do aleatório
de uma escolha arbitral ou de um resultado eleitoral.
Pode não ter razão quem vence.
Pode ter razão quem perde.
Há homens de sucesso que não sabem
onde fica o seu próprio norte.

Todas as semanas o carteiro nos trazia

Todas as semanas o carteiro nos trazia
carta da tia,
falando de uma cidade onde todos eram senhores:
tinham automóvel, vivendas,
passeavam na África do Sul
e iam à praia quando nós tínhamos Inverno.

Queridos pais, irmãos e demais família,
estou a construir uma casa nova
e dentro mando uma cautela premiada
para a mãe comer melhor.

Chegou a carta de papel tão leve,
bordada a verde e vermelho,
por avião, par avion, by air mail:
A Lena já sabe inglês e a Isabel comprou uma motoreta.